O chão de onde brotam as oliveiras, berço de civilizações e palco de profecias, guarda em suas camadas mais profundas não apenas a memória dos tempos, mas o sangue de inocentes. A história da Palestina, por demais marcada pela violência, não é um papiro intocado, mas uma terra cujas cicatrizes testemunham massacres reiterados contra a população civil, cuja documentação, por mais incômoda que seja, exige um olhar sem desvios. Os relatos de Kafr Qasim (1956), onde trabalhadores desavisados foram fuzilados a sangue frio, ou de Qibya (1953), onde mulheres e crianças foram assassinadas em retaliação cega, são páginas macabras que a retidão histórica não pode simplesmente virar, por mais que a conveniência política tente sepultá-las. Em Ein al-Zeitun (1948), a execução sumária de homens após a rendição, a escolha forçada de adolescentes para o pelotão de fuzilamento, e a oculta queimada de corpos, tal como em al-Dawayima e Safsaf, não são meras fatalidades da guerra, mas crimes contra a humanidade que clamam por justiça.
A própria evidência de planejamento governamental para a expulsão de populações, como revelado pelos documentos desclassificados sobre Kafr Qasim a pedido de Ben Gurion, e a subsequente impunidade dos perpetradores, cujas penas foram reduzidas e perdoadas, expõem uma falha moral abissal. A ausência de responsabilidade efetiva não apenas fere a memória dos mortos, mas perpetua a injustiça e corrói a base de qualquer ordem pública. Da Galileia a Tel al-Zaatar, onde milhares de refugiados foram dizimados sob cerco por milícias aliadas e, segundo a fonte, coordenadas com as forças israelenses, a narrativa é de uma violência sistemática que atinge o mais vulnerável, o não combatente, o inerme.
É precisamente por essa dimensão de profunda injustiça que a forma de narrá-la assume uma importância capital. A denúncia dos crimes de guerra é um dever moral irrenunciável, e a publicação de tais fatos, um serviço à veracidade histórica. No entanto, quando a linguagem se torna um instrumento de demonização (“Estado nazista de ‘Israel'”, “fascismo sionista”) e a análise histórica se reduz a um panfleto ideológico que não suporta o mesmo escrutínio moral a todos os lados, a própria força da denúncia se esvai. A pretensão de expor a verdade não pode ser desculpa para se subtrair à exigência da verdade na exposição.
São Tomás de Aquino nos ensina que, para que um ato seja moralmente bom, não basta que a intenção seja reta; o objeto e as circunstâncias também devem sê-lo. Se a “resistência” a uma ocupação, por mais justa que seja em seu princípio, recorre a meios que visam diretamente a matança de civis, crianças e mulheres – como o Diário Causa Operária, ao justificar a “Operação Dilúvio Al-Aqsa” como “combate à colonização”, implicitamente se arrisca a endossar –, ela também se corrompe. A brutalidade de um lado não legitima a brutalidade do outro; a indignidade dos meios macula a dignidade do fim. A história, quando contada apenas para alimentar o ódio e a polarização, não liberta; apenas perpetua o ciclo de vitimização.
O Papa Pio XII advertia contra a redução do “povo” a uma “massa”, um corpo sem alma, facilmente manipulável por paixões e ideologias. A narrativa que desumaniza o adversário, que o reduz a um monolítico agente do mal, incorre no mesmo vício que critica. Ao invés de buscar a complexidade – que inclui, sim, a responsabilidade criminosa de agentes estatais e militares – e a distinção entre a culpa de indivíduos e a identidade de um povo, a linguagem ideológica transforma a denúncia em mera retórica de combate, um espelho invertido da própria propaganda que condena. A justiça verdadeira não é seletiva; ela é universal em seus critérios e implacável em sua exigência, independentemente de quem sejam as vítimas e os algozes.
É o tipo de paradoxo que Chesterton, com sua sagacidade, desnudaria: a tentativa de iluminar a escuridão da história com uma lanterna ideológica que, de tão focada em um lado, acaba por projetar sombras ainda mais longas sobre a verdade completa. Não é justo exigir a verdade do inimigo e negar a si mesmo o mesmo rigor. Uma ordem moral pública digna desse nome exige que se chame o crime de crime, o injusto de injusto, sem meias palavras, mas também sem o fardo da seletividade ou da parcialidade que deturpa o bem da cidade e a possibilidade de uma paz real.
A verdadeira paz não se edifica sobre a fumaça de ideologias em confronto, nem sobre o solo banhado em sangue não reconhecido, mas na dura luz da justiça e da veracidade que, em sua inexorável clareza, honra os mortos e liberta os vivos para um futuro de dignidade.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.