No labirinto das águas turvas de Roraima, onde os rios transbordam e as estradas se calam sob a força do inverno amazônico, a vida política do estado se prepara para um pleito suplementar cercado por uma densa névoa de incertezas. A eleição, marcada para um 21 de junho que coincide com o auge das cheias, já enfrentaria os desafios logísticos de comunidades isoladas e acessos intransitáveis. Contudo, a essa adversidade natural soma-se um emaranhado jurídico e político que lança sérias dúvidas sobre a ordem do processo e a clareza da escolha popular.
A decisão do ministro Flávio Dino, restabelecendo prazos de desincompatibilização, e o consequente pedido do Ministério Público Eleitoral pelo indeferimento de candidaturas chave, como a de Arthur Henrique (PL) e Antônia Pedrosa (PT), transformam o ato de votar numa aposta arriscada. O eleitor é convocado a escolher entre nomes que, no limite, podem ser varridos do mapa legal a qualquer instante. Uma campanha que prossegue “sub judice”, sem que os postulantes apresentem um “plano B” ou uma alternativa clara, não demonstra fortaleza, mas uma imprudência que desconsidera a estabilidade institucional e o tempo dos cidadãos. O direito de ser votado é sagrado, mas exige a conformidade com a lei; e o direito de votar exige a certeza de um processo íntegro.
No caso de Arthur Henrique, a situação se adensa. Ao mesmo tempo em que ele aceita o apoio do ex-governador Antonio Denarium, inelegível após cassação, tece críticas à gestão anterior — a mesma que Denarium liderou. Essa “sinuca de bico” não é apenas uma manobra tática. Ela mina a virtude da veracidade e da honestidade no discurso público, tão caras à reta ordenação da vida política. Como pode um candidato buscar a confiança do eleitorado para um novo governo se sua base de apoio se confunde com aquilo que ele mesmo denuncia como falho? A verdade, nesse terreno, é a primeira a ser alagada.
Além das nuvens jurídicas e da neblina da ambiguidade política, a eleição enfrenta um dilúvio literal. A Assembleia Legislativa de Roraima e a OAB-RR emitiram justas preocupações com as dificuldades de acesso em áreas rurais, indígenas e ribeirinhas. A coincidência da data do pleito com o pico do inverno amazônico não é um mero detalhe, mas um obstáculo real ao exercício da dignidade da pessoa humana enquanto cidadão. Quando milhares de eleitores ficam isolados pelas chuvas, incapazes de chegar às urnas, o voto não é mais um direito universal, mas um privilégio para os que conseguem atravessar as barreiras. Nesse cenário, o princípio da justiça, que exige equidade na participação, é violentamente atingido. Pio XII, ao diferenciar “povo” de “massa”, alertava para o risco de o indivíduo ser diluído em um coletivo despersonalizado e impotente. Impedir o acesso ao voto é transformar o povo em massa informe.
A promessa de um governo, seja qual for o resultado, que nasce sob tal instabilidade jurídica e com um déficit de participação popular, é uma aposta temerária. O futuro governador, seja Arthur Henrique ou outro, pode herdar um mandato que já se inicia com sua legitimidade posta em xeque e a governabilidade comprometida por um Legislativo alinhado ao adversário. A política exige não só astúcia, mas uma magnanimidade que eleve o debate e garanta as condições mínimas para que a vontade do povo se expresse de forma plena e transparente.
A integridade do processo eleitoral não é um luxo, mas o alicerce da vida comum. Em Roraima, o clamor popular não pode ser invocado retoricamente enquanto se ignora a voz real dos que estão ilhados pelas águas ou presos na teia da incerteza jurídica. A justiça não se faz apenas com a contagem dos votos, mas com a garantia de que todos os votos puderam ser dados, sob a luz clara da lei e da veracidade dos propósitos. Ignorar esses entraves é construir sobre areia movediça.
A ordem que se busca na República, para ser verdadeira, deve emergir de um processo que honre a lei e respeite o eleitor, não de uma aventura política que navega entre a ambiguidade e a intemperança das circunstâncias.
Fonte original: Folha de Boa Vista: Not�cias, Imagens, V�deos e Entrevistas
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.