Quando o veneno do crime organizado se espalha pelas veias da nação, ameaçando o corpo social em suas mais íntimas células, o diagnóstico exige mais do que a retórica política e o cálculo eleitoral. Classificar organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) sob o rótulo de terrorismo, como fez o governo Trump no passado, é um ato que transcende a diplomacia e se enraíza na realidade brutal de milhões de brasileiros. No entanto, reduzir essa complexidade a uma mera jogada no tabuleiro eleitoral, como se a segurança pública fosse um item negociável de campanha, é uma omissão grave e uma traição à esperança de um povo já tão martirizado.
A ameaça do PCC e do CV não é uma abstração ideológica; é a bala que silencia, a extorsão que empobrece, a infiltração que corrói as instituições de dentro para fora. Atingiram um alcance assustador, infiltrando-se em ramificações políticas, econômicas e até mesmo no tecido financeiro, como se denunciam. Diante de tal realidade, a resposta do Estado não pode ser tardia, nem se limitar a meras operações de superfície ou a uma “guerra cultural” de narrativas. O governo Lula, ao acordar tardiamente para o problema, por mais que tenha incrementado operações nos últimos meses, precisa ir além da reação e apresentar um plano robusto.
É legítimo e urgente perguntar qual a real eficácia jurídica e operacional de uma classificação de terrorismo e quais as ferramentas concretas que ela desbloqueia – ou engessa – para as forças de segurança. Esta não é uma discussão que possa ser desfiada em meros termos de “dificultar a ação da polícia”, como se a lei fosse um estorvo à eficácia. Pelo contrário, a lei, quando reta, é o instrumento mais afiado da justiça. Desviar o foco para estratégias de contra-ataque político baseadas em acusações sem a devida confirmação factual é abdicar da responsabilidade moral. É confundir o combate ao mal com o manejo de uma polêmica, esvaziando a gravidade do tema e expondo a fragilidade do debate público.
A dignidade da pessoa humana, reiterada pelo Magistério, exige que a ordem pública seja garantida não pela conveniência tática, mas pela firmeza dos princípios e pela integridade dos métodos. O finado Pio XII, ao diferenciar o povo da massa, advertiu que a manipulação das emoções e das narrativas transforma cidadãos em meros números a serem contados, em vez de seres humanos a serem servidos por uma ordem moral pública justa e transparente (Cap. 4). A verdadeira justiça (virtude primária aqui) não permite que se utilize a tragédia da criminalidade como mero palanque. Exige honestidade e veracidade na comunicação, e laboriosidade na construção de soluções duradouras (Cap. 5).
Talvez Chesterton, com sua sanidade contra a loucura lógica das ideologias (Corpus Guide), nos lembraria que o perigo não reside apenas nas gangues que aterrorizam as ruas, mas na aceitação de que a política se torne uma extensão dos métodos dessas gangues, onde a verdade é maleável e a acusação, uma arma. A guerra cultural legítima (Cap. 9) não se faz com desinformação ou alegações não comprovadas, mas com a beleza e a verdade de um projeto civilizacional.
O desafio da segurança pública é, afinal, um teste de caráter para a República. Não se trata de defender uma “soberania do crime” sob o pretexto de nacionalismo, mas de reafirmar a soberania do Estado de Direito sobre o território e as vidas de seus cidadãos. A tarefa urgente é construir um plano de segurança que seja transparente, proativo e ancorado em políticas de Estado, e não em agendas eleitorais de curto prazo. Somente assim se resgata a confiança e se oferece uma resposta real àqueles que, dia após dia, enfrentam o terror que se instalou em suas portas.
Fonte original: GGN
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.