Atualizando...

Legado Agnelo Queiroz: Estádio de R$1.5 Bi vs. Casas e BRTs

Legado Agnelo Queiroz em Brasília: o estádio de R$1.5 bi e 75 mil moradias/BRTs incompletos. Analisamos prioridades, descontinuidade e a justiça na gestão pública.

🟢 Análise

O palco da política, por vezes, oferece um espetáculo grandioso, mas esconde os andaimes da vida real. Quando um ex-gestor, como Agnelo Queiroz, revisita seu legado e se apresenta para novos pleitos, é natural que a narrativa se incline para os louros conquistados. Não se pode negar o volume de ações em seu governo: a massiva contratação de servidores para a saúde, a instalação de UPAs e Clínicas da Família, a reforma de hospitais e a construção do Hospital da Criança são fatos que denotam um esforço real de estruturação. O mesmo vale para a criação de creches, a licitação do transporte público após meio século de inação e a organização do tratamento do lixo. Houve, inegavelmente, um ímpeto de trabalho em várias frentes que merecem reconhecimento.

Contudo, a verdadeira medida de uma gestão não se dá apenas pela soma das iniciativas, mas pela solidez e continuidade do que é edificado, especialmente aquilo que toca as necessidades mais básicas do povo. Aqui, surge uma fissura na narrativa da excelência inquestionável. Enquanto se erguia um Estádio Nacional de R$ 1,5 bilhão, uma obra que o ex-governador projeta para “200 anos”, outras promessas fundamentais para a vida comum, como 75 mil unidades habitacionais e os BRTs Norte e Oeste, com recursos alegadamente reservados, ficaram presas no limbo da descontinuidade. Esta é a antítese mais pungente: o contraste entre a vitrine da obra faraônica e os alicerces incompletos da moradia e do transporte diário.

A doutrina social da Igreja, especialmente pelas lentes de Pio XI, nos recorda que a crítica à estatolatria não se limita apenas ao gigantismo do Estado, mas se estende à desordem de prioridades. O Estado, em sua função subsidiária, deve zelar para que o bem comum seja alcançado em suas dimensões mais concretas. Não é justo que a ambição de um espetáculo mundial ofusque a urgência da casa para o cidadão e da locomoção digna do trabalhador. A questão não é tanto o que se fez, mas o que se deixou de fazer ou de garantir que fosse feito, em nome de uma ordem hierárquica de bens que coloca o essencial antes do suntuoso.

Esta desarticulação entre intenção e conclusão exige uma análise de justiça e honestidade intelectual. Onde estavam os mecanismos de governança que assegurariam a finalização dessas 75 mil habitações e dos BRTs, mesmo com a mudança de governo? É cômodo atribuir a não-concretização a “interesses do império americano”, a uma “elite brasileira” ou a “lawfare” genérico. Mas, como Chesterton nos ensina, a sanidade está em confrontar a realidade, por mais incômoda que seja. A loucura lógica, por vezes, reside em buscar inimigos externos para justificar falhas internas de planejamento, de execução ou de gestão de transição. Se a terceira parcela de um aumento salarial concedido só foi paga por via judicial, e sem correção, anos depois, isso aponta para uma fragilidade na previsibilidade fiscal e na segurança jurídica do compromisso original.

A verdadeira vocação do serviço público não se esgota no início de projetos grandiosos, mas se concretiza na sua conclusão efetiva e na perenidade de seus benefícios. A responsabilidade do governante transcende o mandato eleitoral; exige que as obras e políticas estruturantes sejam blindadas de descontinuidades, ancoradas em um planejamento robusto e em salvaguardas que garantam sua entrega à população. Não basta anunciar o plantio; é preciso assegurar que a colheita chegue a quem dela precisa, independentemente de quem ocupe a cadeira do poder.

O legado de um estadista não se mede apenas pela beleza dos projetos desenhados ou pela audácia dos anúncios, mas pela durabilidade da ordem que implantou e pela efetividade da justiça que serviu. A política, em sua essência mais nobre, é a arte de edificar a cidade para o homem, não para a vaidade do político. Um governo que ergue estádios e deixa famílias sem teto ou sem transporte digno oferece ao povo uma fachada imponente, mas pouca solidez para a vida que nele se desenrola.

Fonte original: Jornal de Brasília

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

Artigos Relacionados