Uma nação em convulsão social é como um corpo gravemente enfermo: os sintomas externos de febre e delírio denunciam uma luta interna pela vida, onde a ordem vital se desfaz sob o assalto da desarmonia. Na Bolívia, o que se vê são estradas bloqueadas, cidades paralisadas, e o lamento daqueles que pedem a renúncia de um presidente recém-empossado, Rodrigo Paz. A Central Operária Boliviana, mineiros, camponeses, índios, professores e transportadores se lançam às ruas, mobilizados por uma percepção profunda de ilegitimidade eleitoral e pela crueza de uma repressão que já deixou mortos, feridos e detidos. É o drama da autoridade que perde a confiança do povo e responde à insatisfação com a força brutal.
A gravidade da crise boliviana é inegável, e as preocupações com a violação de direitos humanos e a erosão da confiança democrática são absolutamente legítimas. Quando um governo acusa mobilizações populares de serem financiadas pelo narcotráfico, ameaça líderes de protesto com prisão e culpa a oposição pela desordem, ele não apenas deslegitima o sofrimento de seus cidadãos, mas corrói o tecido da verdade pública. A dignidade da pessoa humana exige que a autoridade estatal seja serva da justiça, e não instrumento de perseguição ou de violência contra aqueles que, dentro dos limites da lei natural, clamam por seus direitos e por uma governança íntegra.
Contudo, a análise de um quadro tão complexo exige discernimento, evitando tanto a complacência com o arbítrio estatal quanto a ingenuidade diante de narrativas simplistas. O clamor por mudança, por mais justo que seja, precisa se distinguir da instrumentalização política que reduz a complexidade eleitoral a meras “fraudes” e a ação política a um confronto permanente sem estratégia de construção. Pio XII alertava sobre a diferença entre povo e massa: o povo é um corpo orgânico, consciente de seus deveres e direitos, capaz de discernir e agir; a massa, pelo contrário, é amorfa, facilmente manipulável por paixões e promessas, e suscetível a um messianismo que dispensa as vias institucionais em nome de uma pureza ideológica.
A insistência em deslegitimar as instituições por completo, convocando ao voto nulo ou à desobediência civil radical como única via, pode ser, paradoxalmente, uma estratégia que pavimenta o caminho para desfechos ainda mais sombrios. Em vez de abrir espaço para uma transformação genuína, ela arrisca alienar os setores da sociedade que, embora insatisfeitos, ainda valorizam a estabilidade e a ordem democrática mínima. A radicalização excessiva, sem a construção de maiorias sociais e a negociação em múltiplos níveis (parlamentar, judicial, social), pode justificar a repressão estatal e fortalecer forças reacionárias que se apresentarão como os únicos garantes da ordem. Não se trata de defender a injustiça, mas de exercer o juízo reto sobre os meios e fins da ação política. A justiça não é servida por um salto no escuro, mas pela construção paciente de uma ordem que respeite a todos.
A Igreja ensina que a autoridade é para o serviço do bem comum, e não para a autoperpetuação ou a tirania. A legítima mobilização social tem seu lugar, mas a prudência política exige que se pese o custo e o benefício de cada ação. Qual é o plano para a governabilidade e a sustentação de políticas públicas transformadoras caso o poder seja conquistado por vias extralegais ou em contextos de profunda polarização? A simples negação do sistema, por vezes, condena os movimentos progressistas a uma eterna oposição sem capacidade de efetivamente transformar as condições materiais da população.
A tentação de importar modelos de confronto direto de um contexto para outro, como se faz com a Bolívia em relação ao Brasil, ignora as particularidades históricas e institucionais de cada nação. A construção de “alianças amplas”, tantas vezes criticada como traição ideológica, pode ser, na realidade, um ato de magnanimidade política essencial para se alcançar a governabilidade e implementar reformas em sistemas democráticos plurais. A rejeição de qualquer compromisso em nome de uma pureza ideológica pode levar à marginalidade política prolongada ou a confrontos sangrentos sem perspectiva de vitória duradoura, esvaziando a capacidade de serviço ao povo.
A lição boliviana, portanto, transcende a denúncia da repressão para questionar a eficácia e a moralidade de estratégias que, embora nascidas de um desespero legítimo, podem conduzir a um ciclo de violência e instabilidade ainda maior. A ordem social não é uma abstração a ser destruída, mas um edifício a ser constantemente reparado e aperfeiçoado pela veracidade nos fatos e pela justiça nas relações humanas. O deslegitimar tudo, sem um projeto coerente de construção, apenas abre um vácuo que pode ser preenchido por soluções ainda menos democráticas.
Não se edifica uma casa sobre areia movediça. A busca por um futuro mais justo exige não só a coragem de enfrentar a injustiça, mas também a humildade de reconhecer que a via para a verdadeira liberdade ordenada passa pela reconstrução do quebrado, e não apenas pela demolição do que falhou.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.