O corpo humano, essa maravilha de engenharia divina e complexa, anseia por movimento e vigor. E nessa busca perene por força e equilíbrio, as promessas de atalhos e revoluções no treinamento físico surgem com a regularidade das estações. A mais recente oferta no balcão da modernidade fitness propõe o “abdominal em pé” como a epifania do fortalecimento do core e da melhora postural, uma alternativa superior que evita os percalços do método tradicional, especialmente quando este é “mal executado”. Propõe-se que, por nossa vida ser majoritariamente vertical, o treino deveria mimetizar essa dinâmica.
De fato, é um consenso que a má execução do abdominal deitado pode sobrecarregar a cervical e a lombar. E, sim, um trabalho de core que integre a postura e a estabilização da coluna em diferentes planos é fundamental. A prática em pé pode, sem dúvida, recrutar músculos estabilizadores e ser conveniente. Mas a narrativa promocional que acompanha este “novo método” não se contenta em apresentá-lo como uma variação válida. Ela o erige em pedestal, alardeando que ele “reduz drasticamente o risco de dores e lesões” e resulta em “melhorias notáveis” sem a devida corroboração, pintando o abdominal clássico quase como um vilão.
É aqui que a veracidade é posta à prova. A exaltação de um “novo método” baseada na demonização da má execução de um antigo, sem apresentar evidências robustas de sua superioridade intrínseca sobre a boa execução do tradicional, é um artifício retórico que beira a desonestidade intelectual. Não se trata de uma inovação que superou cientificamente o que havia antes, mas de um “ataque ao espantalho” que cria um falso dilema. Chesterton, em sua defesa da sanidade contra as modas passageiras, talvez risse da pretensão de que o “novo” seja bom apenas porque o “velho” pode ser feito de modo inepto. Qualquer exercício, seja ele em pé, deitado, giratório ou estático, exige técnica, disciplina e, sobretudo, orientação qualificada.
A ausência de fontes claras, de estudos comparativos e de uma discussão equilibrada de contraindicações para o “abdominal em pé” acende um alerta sobre a responsabilidade na comunicação, especialmente em temas que afetam a saúde pública. Como advertia Pio XII em seus pronunciamentos sobre a mídia, a informação, para ser formadora da ordem moral, exige clareza, objetividade e respeito à verdade. Quando a linguagem é predominantemente promocional, e não instrutiva, o público, sobretudo os iniciantes ou aqueles com condições preexistentes, é induzido a uma aceitação acrítica, correndo o risco de negligenciar a devida avaliação profissional.
A prudência nos ensina que o bem da cidade não reside em soluções milagrosas ou em promessas vazias. Pelo contrário, exige discernimento e um juízo reto sobre a informação que consumimos. Fortalecer o core é um objetivo louvável, intrínseco à funcionalidade do corpo e à prevenção de males. Mas a escolha dos meios deve ser informada não pela sedução de um marketing ávido, mas pela solidez da ciência e pela experiência validada. Não basta proclamar um método como “inteligente”; é preciso demonstrar sua inteligência com dados, pesquisa e uma abordagem honesta que reconheça suas limitações e o contexto adequado de sua aplicação.
A busca por um corpo são, portanto, não se resolve em promessas simplistas ou na polarização de métodos. Exige uma disciplina contínua, uma escuta atenta aos sinais do próprio corpo e, acima de tudo, a veracidade da informação que nos guia. A verdadeira saúde constrói-se sobre fundamentos firmes, não sobre as areias movediças das tendências efêmeras.
Fonte original: Terra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.