Atualizando...

UOL 30 Anos: Conglomerado Digital e a Tensão da Veracidade

UOL celebra 30 anos de império digital. Sua promessa de "democratização" e jornalismo independente é posta à prova por vastos interesses comerciais e concentração de poder.

🟢 Análise

Trinta anos. Uma vida. No universo digital, três décadas representam eras geológicas, um ciclo completo de Big Bangs e extinções. O UOL celebra essa travessia com a fanfarra merecida de quem se reinventou do acesso discado à inteligência artificial, expandindo seus tentáculos de um mero portal de notícias para um conglomerado robusto que engloba serviços financeiros, educação e tecnologia. A imagem é a de um gigante que promete ser a “principal porta de entrada para conteúdo, serviços e entretenimento digital no Brasil”, um vetor de “democratização” em cada uma de suas vertentes. A ambição é nítida, a engenhosidade tecnológica, inquestionável.

Os fatos confirmam uma trajetória de crescimento vertiginoso: de um lançamento em 1996 com salas de bate-papo a um império com 16 mil funcionários – metade deles engenheiros – atendendo 35 milhões de clientes e 70 milhões de visitantes únicos por mês. O PagSeguro, nascido em 2006, tornou-se um sucesso estrondoso, culminando em um IPO bilionário em Nova York. O UOL EdTech democratiza o acesso ao conhecimento, a AI/R oferece soluções de inteligência artificial. O que se desenha é uma empresa com a pulsão de inovar e de ocupar cada vez mais espaço na vida digital do brasileiro, da notícia do dia à maquininha de cartão, do curso online ao debate presidencial.

Contudo, a celebração e a autoproclamação de “democratização de serviços” e “jornalismo independente e plural” exigem um escrutínio à luz da virtude da veracidade. A promessa de uma “porta de entrada” que leva a todos os cantos do saber e da conveniência pode, paradoxalmente, converter-se num funil que direciona o fluxo para dentro de seu próprio ecossistema. Quando o jornalismo, que se pretende farol da verdade e da independência, é operado pelo mesmo grupo que busca maximizar o tráfego para seu banco digital, sua plataforma educacional e seus múltiplos serviços comerciais, a integridade da pauta editorial e a genuína pluralidade de vozes são postas à prova. A barreira entre interesse público e interesse comercial torna-se tão tênue quanto a linha verde em uma tela de celular que se anuncia premium.

Neste ponto, somos chamados a recordar a crítica de Pio XII à transformação do “povo” em “massa”. Um conglomerado digital que aspira a ser a “principal porta de entrada” de um país, por mais meritória que seja sua capacidade tecnológica, corre o risco de, em sua vastidão, reduzir a diversidade a uma experiência administrada. O “povo” de leitores, usuários e cidadãos pode, sem querer, ser moldado em uma “massa” de consumidores cativos, cujas preferências e até mesmo opiniões são filtradas por algoritmos e interesses de monetização. A “inovação” e a “reinvenção constante” tornam-se, então, menos um serviço desinteressado à sociedade e mais uma estratégia de expansão comercial e sobrevivência num mercado selvagem.

É aqui que a humildade se faz virtude cardinal. O gigantesco alcance e o poder de influenciar mercados e mentalidades, inerentes a um grupo do porte do UOL, deveriam ser acompanhados de uma autocompreensão mais sóbria de suas limitações. A alegação de “democratização” necessita ser temperada pela consciência de que a dominância de mercado, por mais eficientes que sejam os serviços, não promove automaticamente a pulverização e a concorrência saudável, mas a concentração. A integração da inteligência artificial no jornalismo e na personalização de serviços, embora apresentada como avanço, levanta preocupações legítimas sobre a ética, a transparência na autoria e o futuro do trabalho humano, tudo isso sob a égide de uma única e poderosa corporação.

A ambiguidade inerente a um “portal” que também é um “colosso” não é um problema técnico, mas moral. A virtude da veracidade exige que se declarem claramente os limites da independência quando o conteúdo jornalístico habita a mesma casa que o banco e a escola. A humildade impõe que, ao invés de alardear uma “democratização” que, na prática, é a expansão de um império comercial, se reconheçam as tensões e os custos da centralização de poder informacional e financeiro.

O UOL, em seus 30 anos, construiu um império digital notável. Que essa edificação, contudo, não se converta numa torre que, ao se elevar para abarcar tudo, projete uma sombra demasiado longa sobre a praça pública da informação e da convivência. A verdadeira “porta de entrada” não subordina a liberdade de quem entra aos seus próprios muros, mas lança o olhar para além, em busca da verdade que nos liberta.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

Artigos Relacionados