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Reino Unido: Ingovernabilidade? É Crise da Classe Política

A ingovernabilidade britânica não é falha do sistema, mas reflexo de uma classe política sem virtude. Em 7 anos, 5 PMs e instabilidade crônica. Analisamos a real crise.

🟢 Análise

O relógio da velha torre marca o tempo, mas o que acontece nas suas engrenagens parece alheio à sua melodia constante. Em sete anos, cinco primeiros-ministros passaram pelo Reino Unido, numa valsa vertiginosa de saídas e entradas em Downing Street. Mais do que a simples troca de guardas, o vaivém de sete ministros de Relações Exteriores e seis ministros da Economia no mesmo período aponta para uma desordem que transcende as disputas partidárias. A narrativa que se instala, a da “ingovernabilidade” britânica, é tentadora, mas perigosa, pois externaliza o problema e mascara a verdadeira crise: a de uma classe política que, munida de um sistema robusto, falha em exercê-lo com a virtude necessária.

Os desafios, sem dúvida, são grandiosos. O país enfrentou a ressaca da crise financeira de 2008, a complexidade existencial do Brexit, o golpe econômico da pandemia e as ondas de choque da guerra na Ucrânia. Tais eventos globais testam a fibra de qualquer nação. Contudo, como bem sublinham analistas, o sistema parlamentar britânico, com sua democracia majoritária, concede poder significativo a um governo com maioria. A questão crucial, então, não é se o Reino Unido pode ser governado, mas por que a maioria concedida não tem sido utilizada para promover estabilidade e continuidade, e por que a surpresa com a dificuldade de governar se tornou um mantra quase universal entre os que chegam ao poder.

A centralização do poder em Downing Street, por exemplo, é uma preocupação legítima. Se o Número 10 se torna um polo que esvazia a autoridade dos ministros e desmoraliza o funcionalismo público, a estrutura de governança padece. Pio XI, ao criticar a estatolatria e defender a subsidiariedade, já alertava para os perigos de uma autoridade que suprime, em vez de coordenar, os corpos intermediários da sociedade. Quando os ministérios perdem relevância e a capacidade de implementação, a máquina estatal, por mais potente que seja em teoria, engasga na prática. Não é o Estado que se torna ingovernável, mas uma elite política que se afasta da reta ordenação do poder.

Há, ademais, uma visível crise de laboriosidade e responsabilidade na política. Não se trata apenas de “habilidades essenciais de liderança”, mas de uma disposição para o trabalho árduo, a formação contínua e a disciplina institucional que a governança exige. A frustração de um primeiro-ministro que encontra “vários regulamentos, consultas e órgãos” que alongam o tempo entre “acionar a alavanca e obter resultados” é sintoma de uma falta de preparação para a complexidade intrínseca da gestão pública. A política não é um show de improviso, mas um ofício que demanda paciência, estudo e a capacidade de enfrentar realidades duras, tanto para a própria base parlamentar quanto para o público.

Nesse cenário, a mídia e as redes sociais funcionam como catalisadores, amplificando o efêmero e o dramático. A “excitação dos jornalistas” por escândalos e a obsessão pela gestão da pauta de notícias criam um ciclo de caos que penaliza o planejamento de longo prazo. O “curto-prazismo” se impõe como norma, enquanto problemas estruturais demandam soluções que, por sua natureza, levam anos para frutificar. A justiça para com o povo, que se manifesta na busca pelo bem da cidade e na estabilidade duradoura, é sacrificada no altar da popularidade imediata e da espetacularização. Os políticos, movidos por esta lógica, tornam-se reféns de uma dinâmica que eles próprios alimentam.

A ideia de “ingovernabilidade” serve, muitas vezes, como um escudo. É uma conveniente externalização da responsabilidade por falhas que, na maioria das vezes, decorrem de uma crise interna de liderança, estratégia e disciplina partidária. O problema não é que o navio esteja condenado, mas que o leme esteja nas mãos de quem se recusa a traçar uma rota consistente ou a enfrentar as tempestades com firmeza. A capacidade do Reino Unido de governar a si mesmo é inegável; o que se põe em xeque é a vontade e a virtude de uma classe política que parece ter trocado a bússola da ordem pela veleta do oportunismo.

Reconstruir a ordem política exige mais do que lamentações sobre uma suposta ingovernabilidade. Exige o retorno à justiça como alicerce da vida pública e à laboriosidade como virtude de cada governante. Só assim o exercício do poder, que por natureza deve servir ao povo e não à massa, reencontrará sua legitimidade e eficácia, garantindo que as promessas de um futuro mais estável não se percam na turbulência do presente.

Fonte original: Correio Braziliense

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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