Quando a colheita murcha, o agricultor sensato não culpa apenas a geada; ele examina a qualidade do solo, a diligência no plantio e a sabedoria da irrigação. Assim também é com o clamor de uma catástrofe humanitária: o alerta do ministro cubano Bruno Rodríguez no Conselho de Segurança da ONU, acerca do risco iminente que paira sobre a ilha, é um sinal de dor que exige escuta. De fato, as sanções econômicas prolongadas, ao restringir o acesso a bens essenciais e medicamentos, impõem um custo humano real e documentado sobre a população civil, cuja miséria a Igreja sempre denunciou, independentemente dos regimes políticos em questão. A duplicação da mortalidade infantil ou a redução da expectativa de vida de crianças com câncer, se verdadeiras e diretamente imputáveis a tais restrições externas, são tragédias que tocam a própria dignidade da pessoa humana e exigem uma solução de justiça.
Contudo, a verdade, para ser plena, não pode ser unilateral. A narrativa que atribui toda a responsabilidade pela condição socioeconômica de um povo unicamente à “agressão” externa, ignorando a complexidade multifatorial das causas, incorre em um grave reducionismo moral. Essa abordagem, que pinta os Estados Unidos com os traços hiperbólicos de “imperialista, neofascista, de dominação, saqueio e conquista”, pode servir à mobilização política, mas obscurece a veracidade necessária para um diagnóstico justo e impede o caminho para soluções integrais. Há uma distinção tomista fundamental entre a causa remota e a causa próxima; e a responsabilidade de um governo para com seu próprio povo é sempre uma causa próxima, inescapável.
O “melhor argumento contrário” é incisivo: as dificuldades humanitárias em Cuba não podem ser atribuídas unicamente ou predominantemente a políticas externas dos EUA sem uma análise crítica das próprias escolhas econômicas e de gestão interna do governo cubano. Modelos centralizados, a falta de reformas estruturais, a burocracia excessiva e a capacidade de adaptação à escassez interna são fatores significativos que podem exacerbar as dificuldades da população, independentemente de bloqueios. Reduzir a tragédia a um inimigo externo é desviar o escrutínio de responsabilidades domésticas e instrumentalizar o fórum da ONU para uma polarização retórica que impede uma análise mais equilibrada e construtiva.
A condenação da “imputação” contra Raúl Castro Ruz como “moralmente infame e ilegalmente arbitrária”, proferida pelo ministro cubano, pode ser um dado da retórica, mas carece de detalhes concretos e de um processo jurídico internacionalmente reconhecido para que se possa aquilatar sua justiça objetiva. De igual modo, a busca por “viver em paz” e o reconhecimento de “profundos e fraternos vínculos com o povo e a cultura estadunidenses” soam contraditórios quando acompanhados de uma retórica diplomática tão veementemente agressiva e unilateral. A paz duradoura não se constrói sobre o rancor perpetuado, mas sobre a busca ativa do diálogo e do reconhecimento mútuo, mesmo entre adversários.
A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, lembra-nos que a família é anterior ao Estado e que a propriedade deve ter uma função social, enquanto Pio XI adverte contra a estatolatria e Pio XII defende o “povo” contra a “massa”. Em Cuba, as perguntas incômodas persistem: se a prioridade é evitar uma catástrofe, por que não há maior abertura para discussões sobre reformas econômicas internas, que poderiam aliviar as condições de vida da população? Por que os vastos recursos e parcerias estratégicas com nações como a China não foram mais efetivos em mitigar os efeitos de sanções e garantir a sustentabilidade econômica?
A solução para o sofrimento do povo cubano não reside em acusações simplistas ou na projeção da culpa sobre terceiros. Ela exige um duplo movimento: a comunidade internacional deve sim revisar as sanções que impõem dor imerecida aos inocentes, mas o governo cubano, por sua vez, precisa fazer um exame de consciência sobre as suas próprias políticas, que, por vezes, prendem o povo em ideologias antes de servi-lo. A verdadeira força de uma nação não se busca em endossos externos, nem se esgota em culpar o mundo, mas se edifica na laboriosidade e na justiça de sua própria governança, onde o bem da cidade, e não o aparelho de Estado, seja o fim de toda política.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.