A memória de um centenário político não é apenas um relicário de glórias passadas; é um espelho que, ao refletir o heroísmo da juventude, deveria também iluminar as responsabilidades da maturidade. Pedro Simon, aos 96 anos, resgata com vigor a epopeia do MDB contra a ditadura, a “época dramática” de “regime de terror” onde a oposição democrática, desarmada, resistiu com “dignidade e seriedade”. É uma narrativa potente de resgate da liberdade e da “bela Constituição” de 1988, forjada no calor da luta. Contudo, ao lamentar que o País “vive uma época dramática” de “anarquia geral” hoje, o decano aponta para uma falha que, na verdade, não surgiu do vácuo.
Ninguém nega a preocupação legítima com a crescente fragmentação partidária, a erosão da confiança nas instituições e a persistência de discursos que ameaçam a estabilidade democrática. O alerta sobre a corrupção na elite e a desorientação coletiva são ecos de um mal-estar real. Contudo, a grandiloquência da denúncia atual, ao pintar um cenário de “explosão” inexplicável ou de “pandemônio” que anula a capacidade de escolha, falha em engajar-se na autocrítica necessária para entender como chegamos a esse ponto. A voz que celebra a reconquista da liberdade, ao mesmo tempo que critica o resultado dessa liberdade desordenada, precisa de um momento de introspecção.
Sob a ótica da Doutrina Social da Igreja, a “liberdade ordenada” pregada por Leão XIII não é um ideal etéreo, mas o fruto de instituições robustas e de uma sociedade subsidiária, onde os corpos intermediários florescem e não são esmagados. O “pandemônio” de hoje, com seus “30 partidos” sem “caldo de cultura”, pode ser, em parte, o legado de um sistema político que, na sua suposta renovação pós-ditadura, não conseguiu edificar uma estrutura que promovesse a justiça social e a participação orgânica. A justiça exige que, ao analisar a queda do edifício democrático, não se exima da avaliação dos próprios arquitetos e construtores do regime pós-88, entre os quais o “velho MDB” e seus herdeiros foram protagonistas inquestionáveis.
Há um paradoxo quase chestertoniano na visão de um “MDB puro” que emerge da luta contra uma ditadura monolítica e que, décadas depois, se vê em meio a uma “anarquia geral” da qual se sente vítima, mas não partícipe. Chesterton nos ensinaria que a sanidade muitas vezes reside na complexidade do real, e não na simplificação dicotômica. A defesa de Floriano Karan Menezes por Simon no caso do assassinato do deputado Kliemann, um “drama cruel” para a família da vítima, ainda que legítima sob o rito do direito, serve como um lembrete incômodo: a veracidade na esfera pública não se compadece de narrativas unilaterais que ignoram as zonas cinzentas e os compromissos éticos de uma trajetória. A “linha de respeito, credibilidade e confiabilidade” precisa ser testada em todas as suas curvas.
A afirmação de que o Brasil vive hoje um “regime de terror” ou que ministros do Supremo “deviam estar até na cadeia”, proferida sem a devida contextualização ou especificação, dilui a memória do sofrimento real da ditadura militar, com suas torturas e assassinatos sistemáticos. Se a “mídia responsável” de Pio XII exige discernimento, a liberdade de expressão não pode ser salvo-conduto para a irresponsabilidade na denúncia. A honestidade cívica impõe que as críticas às instituições e às pessoas que as compõem sejam tão específicas e fundamentadas quanto a gravidade das acusações. A fragmentação política e a desconfiança generalizada não se curam com mais combustível para a polarização, mas com a restauração paciente da ordem e da verdade.
O Brasil, como um vasto e belo campo de virtudes e contradições, precisa sim do testemunho dos seus decanos. Mas a reconstrução moral e cultural que Simon almeja — um “baita país” da “liberdade, democracia, respeito, amor” — não pode ser um mero retorno nostálgico. Exige uma magnanimidade que abrace a autocrítica, uma esperança que aprenda com as falhas do presente e uma justiça que distribua não apenas os louros da resistência, mas também o ônus da responsabilidade pelas fundações da casa comum. O verdadeiro amor à pátria se manifesta não apenas em celebrar vitórias passadas, mas em edificar, com laboriosidade e humildade, um futuro que não repita os enganos da história, nem se esconda sob a glória de outrora.
Fonte original: Portal GAZ
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.