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Escola e Automutilação: Desvio de Missão na Saúde Mental

Automutilação juvenil na escola é grave. Mas delegar aos educadores a primazia da saúde mental desvia a missão pedagógica, sobrecarregando-os. A escola deve acolher e encaminhar, não substituir o sistema de saúde.

🟢 Análise

A escola, esse venerável canteiro onde a semente do saber deveria brotar e frutificar, encontra-se hoje sob o peso de um fardo que lhe é alheio. Relatos preocupantes dão conta do aumento da automutilação entre adolescentes, com 13.007 notificações no Rio de Janeiro em 2023, e o ambiente escolar surge como o primeiro palco onde as marcas da angústia se tornam visíveis. É inegável a urgência de um cuidado, de uma rede que acolha e restaure. Mas quando a solução proposta exige da escola que ela se transforme no nó central de um sistema de saúde mental, transferindo aos educadores, já exaustos e sem formação clínica, a primazia de uma tarefa que não lhes compete, o zelo se transfigura em um perigoso desvio de missão.

A tragédia da automutilação juvenil, definida como um comportamento intencional que resulta em lesão física ou psicológica, é um sintoma doloroso de males mais profundos na alma de uma geração. As funções intrapessoais, como o alívio da dor emocional, e as interpessoais, como o grito silencioso de sofrimento, apontam para uma carência afetiva e espiritual que nenhuma cartilha ou notificação compulsória, por si só, pode sanar. A Lei 13.819/2019 e a previsão de equipes multiprofissionais nas escolas (Lei 13.935/2019) são bem-intencionadas, mas a realidade da precarização do ensino público, a falta crônica de psicólogos e assistentes sociais, e o despreparo dos professores revelam o abismo entre o ideal legislativo e a aplicação concreta.

A tentação de transformar a escola em um braço estendido do sistema de saúde pública, delegando a ela o papel primário na identificação e manejo de casos de automutilação, trai o princípio da subsidiariedade. Como ensinava Pio XI, não se deve retirar da iniciativa privada ou das comunidades menores aquilo que elas podem realizar e transferir para a sociedade maior. A família, anterior ao Estado e à escola, é a primeira e insubstituível célula de cuidado, e o sistema de saúde, com seus profissionais e estruturas especializadas, é o lugar próprio para o tratamento clínico e terapêutico. Impor aos educadores a responsabilidade de “terapeutas de primeiros socorros” emocionais, sem o treinamento e os recursos adequados, não é justiça; é sobrecarga injusta e, paradoxalmente, uma receita para a “desassistência” dos mais vulneráveis.

Essa “medicalização da educação” desvia o foco da missão pedagógica da escola – a transmissão do saber, a formação do caráter e a preparação para a vida adulta – para uma função clínica para a qual ela não foi concebida nem equipada. Os profissionais de ensino, em sua humildade e honestidade, admitem sentir-se despreparados, e tal sobrecarga pode levá-los ao esgotamento, comprometendo tanto o ensino quanto a delicadeza do acolhimento. A notificação compulsória, embora legalmente necessária, não pode ser o ponto final de um protocolo burocrático, sob pena de gerar estigma e minar a confiança dos adolescentes e suas famílias, empurrando-os para um isolamento ainda maior.

A verdadeira resposta não reside em expandir o papel da escola até a deformação, mas em fortalecer as instituições em sua própria vocação. A escola deve ser um ambiente de vigilância atenta e acolhimento empático, capaz de identificar sinais de sofrimento e encaminhar de forma responsável para a rede de saúde mental e assistência social. Mas é crucial que essa rede externa seja robusta, acessível e bem financiada. A virtude da justiça exige que cada instituição – família, escola, saúde e assistência social – receba os meios e o apoio necessários para cumprir sua missão própria, sem que uma seja coagida a suprir as lacunas estruturais das outras.

O desafio da automutilação não se resolve com a retórica da “rede” sem tecer os fios com a materialidade de clínicas, profissionais e recursos. É preciso uma ação concertada que respeite a distinção de competências, valorize o ofício do educador em sua nobreza própria e reconheça que a patologia da alma não se cura na lousa, mas na clínica e, primariamente, no seio familiar. Que a escola seja um farol, apontando o perigo e indicando o porto seguro, mas que não se veja obrigada a se tornar o próprio porto.

Fonte original: globo.com

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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