A Índia, pela primeira vez desde 1957, acorda sem um governo estadual comunista. O fato, em sua singeleza estatística, parece assinar uma certidão de óbito para uma corrente ideológica que, por décadas, moldou a vida de mais de cem milhões de pessoas e inspirou movimentos sindicais, camponeses e estudantis. Mas a realidade é menos linear do que o epitáfio apressado de uma era, e o declínio eleitoral de um partido não equivale ao sepultamento da pergunta moral que ele, a seu modo falho, tentou responder.
De fato, o impacto histórico da Frente de Esquerda em Bengala Ocidental, Kerala e Tripura é inegável, com legados em reforma agrária e políticas sociais que ainda ressoam. Analistas, como Sanjay Ruparelia, chegaram a sugerir que esses partidos indianos eram, no fundo, mais social-democratas do que comunistas ortodoxos, operando dentro de um sistema democrático com um pragmatismo que destoava de seus pares mais radicais. No entanto, mesmo essa adaptação não foi capaz de sustentar o poder. A participação do CPI (M) no voto nacional despencou, e a “confusão ideológica” apontada por críticos como Shikha Mukherjee, assim como a ausência nas ruas em momentos de “condições objetivas” favoráveis, denuncia uma crise mais profunda do que a mera perda de cadeiras.
A Doutrina Social da Igreja, ao examinar a promessa e o fracasso de tais movimentos, oferece uma lente para o juízo. Embora o comunismo secular tenha prometido um reino de justiça social, ele o fez sobre a areia movediça de uma antropologia distorcida e de um estatismo avassalador. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, alertou contra a absorção da sociedade civil pelo Estado, esmagando os corpos intermediários e a livre iniciativa. Leão XIII, por sua vez, defendeu a liberdade ordenada, a família como sociedade primeira e a propriedade privada com função social. Mesmo quando a esquerda indiana atuou como “social-democrata”, muitas vezes incorreu na tentação de centralizar excessivamente, negligenciando a vitalidade da subsidiariedade e a verdadeira dignidade da pessoa humana, que floresce na liberdade e na cooperação orgânica.
Essa tensão entre o dogma e o real é patente no documento de política do CPI (M) de 2022, que, em uma reviravolta digna de ironia histórica, passou a endossar o investimento privado, parcerias público-privadas e universidades privadas. Não se trata de uma evolução ideológica, mas de uma concessão pragmática, uma forma de humildade imposta pelos fatos, pela necessidade de gerar riqueza e empregos em economias globalizadas, sem a qual a prometida justiça social se torna uma abstração vazia. O modelo, mesmo em sua versão mais amena, falhou em criar uma prosperidade sustentável e em evitar a dependência de remessas externas, como se viu em Kerala.
Contudo, a voz da objeção merece ser ouvida em seus limites legítimos. A persistência de um terço dos votos em Kerala, a capacidade de formar alianças em Tamil Nadu, a ascensão do CPI (ML) em bolsões de Bihar, e o sucesso contínuo de grupos estudantis nas universidades, indicam que a “perda de espaço” não é um desaparecimento completo. A esquerda indiana, mesmo em declínio, continua a ser uma “voz da consciência” para muitos, clamando por justiça diante das desigualdades e das pressões de um nacionalismo hindu em ascensão. A questão da justiça social não se cala com o último voto.
O que se testemunha na Índia é, portanto, um veredicto histórico sobre os limites de uma ideologia, ainda que esta tenha se mostrado capaz de adaptação tática e tenha deixado marcas sociais e políticas profundas. Não se trata apenas da derrota de partidos, mas da revelação de que as promessas de um sistema que, na prática, desconsidera a liberdade e a subsidiariedade, terminam por esbarrar na realidade da natureza humana e na necessidade de uma justiça verdadeiramente solidária. A Índia, ao virar esta página, convida a um olhar mais profundo sobre como edificar uma ordem social que não sacrifique o indivíduo em nome da coletividade, nem a coletividade em nome de um individualismo desenfreado, mas que, sob a luz da reta razão e da verdade revelada, construa a casa comum com os alicerces da dignidade e da liberdade ordenada. A busca por justiça não se encerra com o declínio de uma bandeira, mas se renova na constância da virtude.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.