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Comunismo na Índia: O Declínio e a Busca por Nova Ordem

O comunismo estatal na Índia chegou ao fim. Este artigo explora as razões do seu declínio, o vácuo ideológico e a visão da Doutrina Social da Igreja sobre justiça e subsidiariedade.

🟢 Análise

A terra da Índia, berço de civilizações milenares e encruzilhada de fé e política, testemunha agora o silêncio de um coro que por décadas bradou verdades e utopias. Pela primeira vez desde 1957, não há um único governo estadual no país liderado por comunistas. Não é um mero rearranjo de cadeiras parlamentares; é o fim de um capítulo singular, que outrora impactou a vida de mais de cem milhões de almas e desafiou a lógica geopolítica que confinava a esquerda a regimes autoritários. Em Bengala Ocidental, a Frente de Esquerda dominou por 34 anos ininterruptos, e em Tripura, por um quarto de século. Figuras como Jyoti Basu quase ascenderam ao posto de primeiro-ministro nacional, mostrando a força de uma ideologia que, embora professando a revolução, aprendeu a dançar no ritmo da democracia eleitoral.

Os fatos mostram um declínio inexorável, com a participação eleitoral despencando para menos de 2% nacionalmente. As razões são multifacetadas, tecidas no tecido da modernidade indiana. A estagnação econômica sob a gestão comunista em estados como Bengala Ocidental, e a dependência de remessas externas em Kerala, revelaram as fissuras de um modelo que, na prática, se via imprensado entre a ortodoxia e a necessidade de atrair investimentos. A ascensão do nacionalismo hindu e a liberalização econômica a partir dos anos 1990 reconfiguraram o cenário, forçando a esquerda a se defrontar com uma “ofensiva religiosa, política e econômica” que fragmentou a velha “unidade de classe” em identidades de casta e fé. O próprio CPI(M), em 2022, endossou investimento privado e parcerias público-privadas, uma confissão tácita de que o dogma se dobrava à realidade do mercado.

Contudo, reduzir esse fenômeno a uma simples “morte” seria um reducionismo. Há uma preocupação legítima em reconhecer que a esquerda indiana, embora cambaleante, não desapareceu por completo. Suas redes organizacionais persistem em movimentos de agricultores, ainda que sem a antiga liderança hegemônica, e em grupos estudantis em universidades. A narrativa do declínio pode negligenciar a resiliência de ativistas de base e a influência duradoura em certas pautas de bem-estar social. A própria capacidade de “rejuvenescimento” e “reposicionamento” dentro de um sistema hostil é, para alguns, uma prova de vida. Argumenta-se que, longe de serem puramente comunistas, esses partidos operavam como sociais-democratas, focados em bem-estar e direitos trabalhistas. A crítica, assim, se volta para a assimetria de poder: a centralização crescente em Nova Déli e a hegemonia do BJP, que sufocam alternativas estaduais.

Mas é preciso ir além da mera descrição dos sintomas e buscar a raiz do problema. A Doutrina Social da Igreja, particularmente pelos ensinamentos de Pio XI, oferece uma bússola. A pretensão de construir uma ordem justa unicamente através da ação estatal, ainda que com boas intenções, esbarra na crítica à estatolatria. Se o “verdadeiro poder está em Nova Déli” e os governos estaduais têm “poderes financeiros e administrativos limitados”, como afirmou um secretário do CPI(M), a falha pode estar não apenas na execução, mas na concepção. Uma justiça que se reduz a transferências diretas de dinheiro, em vez de fomentar a autêntica participação dos corpos intermediários – famílias, associações, comunidades – esvazia o cidadão de sua dignidade ativa e o transforma em massa passiva. O bem-estar, quando dissociado da liberdade ordenada e da subsidiariedade, torna-se uma dádiva paternalista, não um fruto da solidariedade orgânica.

Essa “confusão ideológica”, a que se referem os analistas, não é apenas um problema tático, mas um sintoma de uma falta de humildade intelectual diante da complexidade do real. A ideologia que prometia uma engenharia social totalista, ao se deparar com os limites de sua aplicação em um contexto democrático e federal, precisou ceder. Mas o que resta quando se renuncia aos princípios que a distinguiam, sem encontrar novos alicerces para a mobilização e a ação transformadora? Chesterton, com sua perspicácia, diria que o moderno se tornou o conservador de suas próprias novidades, incapaz de perceber que a vida, em sua fluidez, exige mais do que a repetição de velhas fórmulas ou a adoção superficial de novas. O paradoxo é que as “condições objetivas” de desigualdade e desemprego juvenil, que em tese deveriam impulsionar a esquerda, não a encontram “nas ruas” com a mesma força de outrora.

O vácuo deixado por esse declínio é, na verdade, um desafio profundo para a Índia e para qualquer sociedade que se encontra entre a ineficácia das velhas utopias e a voracidade do mercado sem alma. A ascensão de populismos nacionalistas, que mobilizam não pela solidariedade de classe, mas pela política da identidade, preenche esse espaço com uma promessa de ordem, mas frequentemente carece da justiça integral que respeita a dignidade de cada pessoa e a pluralidade de corpos sociais. O que está em jogo não é apenas a sobrevivência de um partido, mas a capacidade de uma sociedade de gerar forças que verdadeiramente lutem pela elevação moral e material de seu povo, sem cair na tentação do controle total ou da anarquia sem rumo.

É na reconstrução das comunidades, na valorização da família como sociedade primeira, e no fortalecimento dos corpos intermediários – em vez da esperança em um Leviatã estatal ou na miragem da revolução – que a semente de uma ordem mais justa e humana poderá, talvez, encontrar solo fértil novamente. Pois a verdadeira política não é um embate entre espectros ideológicos, mas a busca incansável pelo bem da cidade e de cada um de seus cidadãos, ancorada na realidade e na reta razão.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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