A imagem que se impõe no interior da Bahia não é a de um governo que avança, mas a de um percurso interrompido: estradas que deveriam pavimentar o progresso jazem incompletas, pontes prometidas não saem do papel, e a poeira que se levanta é a da desconfiança de um povo que vê suas expectativas esmaecerem. Os fatos são claros e se desenham nos marcos de uma gestão que, ao invés de desatar os nós da burocracia, parece criar novos laços de imobilidade.
Não se trata de mera ineficiência, mas de um problema de ordem mais profunda, que toca a própria justiça contratual e a dignidade dos “corpos intermediários” da sociedade, como ensinou o Papa Leão XIII. É inadmissível que empreiteiras e fornecedores, muitas vezes pequenos e médios empresários, fiquem meses ou anos sem receber por serviços já prestados, com contratos firmados desde 2022. Se a fiscalização da Conder detecta irregularidades, que sejam corrigidas e os responsáveis punidos; mas a paralisação generalizada de pagamentos e obras, sob a alegação de um rigor repentino, cheira mais a contingenciamento orçamentário disfarçado ou a um uso político da máquina estatal do que a uma gestão prudente. A justiça não tolera o calote público, que sufoca o trabalho e impede o desenvolvimento legítimo.
A confusão de papéis no Centro Administrativo da Bahia, com a suposta atuação de um “gabinete paralelo” e a perda de espaço político do governador em exercício em favor de seu antecessor, reflete uma grave desordem na autoridade. O Estado, para bem servir, precisa de clareza na liderança e de um comando que não se dilua em pressões internas ou agendas pessoais. Pio XI, ao criticar a “estatolatria”, alertou para os perigos de uma centralização excessiva que, paradoxalmente, esvazia a capacidade do poder público de atuar com eficácia onde a sociedade mais precisa. Quando o poder se confunde, é o povo que paga o preço.
A crescente criminalidade, particularmente o abigeato que assola os produtores rurais do interior, é um grito silencioso que exige veracidade nas respostas e fortaleza na ação. Animais são furtados e abatidos com brutalidade, e a carne putrefata chega aos açougues, expondo a todos ao risco. A evasão do governador a perguntas diretas sobre a saúde em Jacobina ou a insegurança em Nova Ibiá não é apenas um deslize protocolar; é um sintoma da desconexão entre o governante e as necessidades mais prementes de seu povo, minando a confiança pública e a própria ordem moral. Pio XII nos recordava que o povo não é massa, e merece respeito na comunicação e nas respostas.
O relatório do Índice de Progresso Social (IPS) de 2026, que posiciona a Bahia como o sexto pior estado do país em qualidade de vida, não pode ser ignorado como mera estatística. Ele é um espelho que reflete desafios históricos, sim, mas que também exige da atual gestão uma magnanimidade que vá além da retórica e se traduza em políticas públicas concretas. As denúncias de irregularidades em convênios com prefeituras, comprovadas pelo TCE-BA, apenas reforçam a urgência de uma administração que coloque a probidade e o serviço ao cidadão acima de qualquer cálculo político. A República se edifica sobre a rocha da integridade.
A questão central não é, portanto, a mera disputa de narrativas, mas a ausência de um governo que honre seus compromissos, que atue com clareza de autoridade e que enfrente com seriedade as dores mais elementares de sua gente. A tarefa de governar a Bahia exige uma conversão de prioridades, um retorno à ordem dos bens, onde o serviço público seja uma busca incessante pela justiça e o desenvolvimento de uma vida digna para todos.
O percurso de uma sociedade justa não se mede por promessas vazias, mas pelas obras que se concretizam e pela confiança que se edifica.
Fonte original: Correio
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.