A ascensão vertiginosa de um partido como a Alternativa para a Alemanha (AfD) na Saxônia-Anhalt não é um mero acidente eleitoral; é um sintoma eloquente de um mal-estar profundo no coração da Europa, que desafia os alicerces da ordem democrática e moral. Quando um movimento que o próprio serviço de inteligência interna classifica como “extremista de direita” lidera as sondagens com ambição de governar, a questão não é apenas política, mas fundamentalmente sobre a liberdade ordenada e a saúde do tecido social.
É legítimo reconhecer que o voto no AfD, para muitos, não nasce de um desejo intrínseco de subverter a democracia, mas de um descontentamento genuíno com as respostas dos partidos tradicionais a problemas como imigração, economia e a percepção de uma elite distante. Ignorar essas preocupações, reduzindo-as a puro extremismo, é um erro de juízo que apenas alimenta o apelo “anti-establishment” do partido. A justiça exige que as dores do povo sejam ouvidas e tratadas com seriedade, e a veracidade impõe que se discirna entre a frustração legítima e as propostas que, sob o manto de solução, escondem graves riscos à ordem moral pública.
Contudo, a escuta da angústia popular não pode justificar o endosso a plataformas que contradizem princípios inegociáveis. Os planos de “remigração” propostos no “Encontro de Potsdam”, que visam a deportação de “cidadãos não assimilados” e a construção de uma cidadania baseada em critérios raciais, chocam-se frontalmente com a dignidade da pessoa humana e com a Lei Fundamental alemã. É um exemplo flagrante de como a “liberdade” desordenada, descolada da verdade sobre o homem e a sociedade, pode degenerar em licença para a injustiça e a tirania de uma maioria autoproclamada. Aqui, a voz de Pio XII sobre a distinção entre “povo” e “massa” ressoa com urgência: o povo, em sua organicidade e busca do bem comum, difere da massa, facilmente manipulável por paixões e ressentimentos.
A promessa de “desideologizar os currículos” na educação, por exemplo, embora possa soar como um retorno à objetividade, deve ser examinada com rigor. A verdadeira educação, como ensina a Doutrina Social da Igreja e como se busca em modelos de “transparência curricular” e “conselhos escola-família-comunidade”, não se faz com a mera remoção de uma ideologia para introduzir outra, mas com a perseguição incansável da verdade e a formação integral do aluno, cultivando as virtudes e a compreensão da herança cultural. Se a “desideologização” implica a purificação de ideias contrárias à razão e à moral, é bem-vinda; se significa impor uma nova ortodoxia cultural-identitária, sob o pretexto de “restaurar” uma pretensa pureza, o risco é de substituir uma abstração por outra, igualmente perniciosa.
A prudência política exige, portanto, um discernimento fino. É preciso defender o Estado de direito e a ordem constitucional com fortaleza, resistindo a qualquer tentativa de miná-los por dentro, seja por via de planos de deportação que neguem a igual dignidade, seja por atos concretos de nepotismo, como os que atingiram o candidato Ulrich Siegmund. Mas também é vital que as instituições, como o Departamento Federal de Proteção da Constituição, atuem com imparcialidade inquestionável, pois a percepção de instrumentalização política pode erodir a confiança pública e, paradoxalmente, fortalecer os que se apresentam como vítimas do sistema. A crítica de Pio XI à “estatolatria”, onde o Estado reivindica para si uma autoridade absoluta, é um lembrete perene.
A lição é clara: não se combate a ascensão de propostas problemáticas apenas com a condenação, mas com a oferta de uma alternativa superior e um retorno aos princípios. A reconstrução da confiança passa por abordar as reais aflições dos cidadãos, defender os direitos fundamentais sem transigência e promover uma cultura política de honestidade e responsabilidade.
A saúde da república não se mede pela ausência de atritos, mas pela firmeza inabalável de seus alicerces morais e pela incessante busca da verdade que dignifica cada homem.
Fonte original: Terra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.