A paradoxal cena de um líder político, condenado e sob prisão domiciliar, que tenta orchestrar uma campanha eleitoral nacional, é um espelho que distorce mais do que reflete. É a imagem de um poder desterritorializado, que pretende operar por procuração, mas que se vê limitado pela substância da lei e pela realidade multifacetada do jogo político. A narrativa de uma “lista” de senadores, forjada nas restrições de um isolamento imposto, assume contornos quase míticos, prometendo uma influência que a geografia da reclusão e a natureza pragmática da política teimam em corroer.
De fato, a mera elaboração de uma lista, ou a projeção de um apoio, não se confunde com a genuína articulação política. As severas restrições de contato de Jair Bolsonaro, limitadas aos seus familiares diretos, médicos e advogados, transformam cada endosso num ato mediado e, inevitavelmente, sujeito a interpretações e interesses de terceiros. A capacidade de coordenar uma estratégia nacional, de calibrar apoios e negociar alianças nos 22 estados onde o PL tem presença, é drasticamente reduzida. Não se trata de uma força central que impulsiona candidaturas, mas de um capital político residual que é disputado e cooptado por diversos flancos, inclusive dentro da própria família e do partido.
A Doutrina Social da Igreja sempre insistiu na primazia da ordem moral pública e da justiça sobre ambições particulares. Quando o objetivo declarado de uma estratégia política, mesmo à distância, é a instrumentalização do poder legislativo para fins de retaliação pessoal contra o Judiciário, questiona-se a retidão da intenção e a integridade do processo. A busca por eleger 35 senadores com o intuito explícito de pressionar por impeachments de ministros do Supremo Tribunal Federal não é apenas uma manobra tática; é um movimento que ameaça a separação de poderes e a estabilidade das instituições democráticas, pilares da vida comum e da liberdade ordenada, como ensinou Leão XIII. O bem da cidade não se edifica sobre a vingança, mas sobre o respeito mútuo entre as esferas de governo.
As fissuras já evidentes dentro do próprio campo bolsonarista – entre familiares, entre a ala ideológica e a cúpula pragmática do PL, entre as preferências do ex-presidente e as necessidades de Valdemar Costa Neto ou Tarcísio de Freitas – apenas atestam essa fragilização. O que se anuncia como uma lista unificada é, na prática, um mosaico de apoios condicionados, negociados à luz dos interesses locais e da própria sobrevivência política. A “lista” se torna um endosso com prazo de validade e alcance incerto, mais um símbolo de lealdade a ser exibido do que uma bússola inabalável para o eleitor. A verdade na política exige que se reconheçam essas dinâmicas complexas, e não que se venda uma ilusão de comando monolítico.
É preciso, portanto, que a sociedade e os eleitores discernam entre a figura projetada pela narrativa e a realidade dos fatos. A influência de um líder, mesmo carismático, encontra seu limite na lei e na reta razão. A tentativa de governar à distância, por interpostas pessoas e bilhetes, com o intuito de minar a autoridade de outro poder, é um desvio que atenta contra a justiça. Nossa responsabilidade cívica exige mais do que a crença em soluções personalistas; demanda a construção paciente de uma ordem onde as instituições funcionem com probidade e independência, e onde a verdade não seja sacrificada no altar da conveniência política.
Não se constrói uma nação forte e justa sobre andaimes invisíveis de poder emprestado ou sobre o propósito de desmantelar, mas sobre a solidez de um edifício onde cada pilar institucional respeita seu lugar e cumpre sua função em prol de um destino comum.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.