Quando a diplomacia se transforma em mero balcão de negócios ou em palanque eleitoral, a paz que dali emerge raramente resiste ao primeiro sopro de ventania. A exigência de Donald Trump para que países do Oriente Médio, avessos ou indecisos, assinem os Acordos de Abraão como condição para um acordo de paz com o Irã não é apenas uma manobra política; é uma distorção fundamental da ordem da justiça internacional e uma falha grave de discernimento político. A proposta, ao invés de edificar a paz, lança novos entulhos sobre alicerces já instáveis.
É compreensível, em termos puramente geopolíticos, o desejo de forjar alianças regionais que possam conter a influência iraniana ou estabilizar uma área de conflito perene. Contudo, os meios escolhidos não condizem com a busca por uma estabilidade duradoura. Condicionar um acordo de paz — que, por sua natureza, deveria visar à desescalada de tensões mútuas — à normalização de relações com Israel, ignorando as demandas e o sentimento do povo palestino, é uma tentativa de impor uma solução de cima para baixo. É como querer tapar o sol com a peneira, ou, pior, como construir uma casa pelo telhado, sem antes cuidar da fundação. A justa ordem internacional não se faz por decreto hegemônico, mas pelo respeito à liberdade ordenada das nações, à sua soberania e às suas legítimas aspirações.
A Doutrina Social da Igreja, desde Pio XI, adverte contra a tentação da estatolatria, a idolatria do Estado ou de um poder que se arroga o direito de moldar a realidade ao seu bel-prazer, desconsiderando a autonomia dos corpos intermediários e, por extensão, das nações e seus povos. A insistência unilateral de Washington em cooptar parceiros regionais por meio de benefícios militares e econômicos, sem abordar a questão palestina como um ponto central e inegociável para a paz, ignora a voz de populações inteiras. Quando Arábia Saudita, Paquistão, Catar e Turquia resistem, não o fazem por capricho, mas por lealdade a uma causa que transcende meros cálculos transacionais: a autodeterminação de um povo, que é uma exigência de justiça.
A percepção de um enfraquecimento militar e estratégico dos Estados Unidos e de Israel, somada à necessidade de “vitórias simbólicas” em anos eleitorais, expõe a fragilidade da abordagem. Um acordo de paz que nasce da fraqueza e da necessidade de propaganda, em vez de um reconhecimento mútuo de direitos e deveres, é um castelo de cartas. Não se trata de negar a importância da segurança ou da cooperação, mas de afirmar que a verdadeira segurança advém de uma paz justa e consentida, não de uma aliança forçada. O discernimento político exige que se distinga entre a ilusão de um alinhamento imposto e a realidade de uma coexistência edificada sobre a verdade e a equidade.
O próprio Chesterton, com sua perspicácia para desmascarar as loucuras lógicas da modernidade, talvez diria que é um paradoxo típico de nossa era buscar a paz fazendo refém a própria paz, e a unidade gerando novas divisões. A verdade é que a questão palestina não é um apêndice, um detalhe a ser negociado a posteriori ou varrido para debaixo do tapete; ela é um nervo exposto no corpo do Oriente Médio, e qualquer tentativa de curar o corpo ignorando essa ferida estará fadada ao insucesso. A recusa israelense a qualquer acordo com o Irã, conforme os fatos indicam, apenas complica um quadro que a imposição externa pretende simplificar.
A paz autêntica não pode ser negociada no plano das conveniências eleitorais ou da realpolitik desprovida de brio moral. Ela é fruto da justiça, do respeito à dignidade de cada povo e da capacidade de enxergar o outro não como peça em um tabuleiro, mas como um irmão em humanidade. Ignorar o clamor por autodeterminação é minar os alicerces de qualquer edifício de paz, por mais imponente que possa parecer. A tentativa de forçar a normalização, longe de construir um futuro, apenas perpetua as tensões e os ressentimentos, garantindo que o ciclo de instabilidade prossiga. A verdadeira sabedoria estratégica reside em reconhecer as raízes profundas dos conflitos e em ter a fortaleza de enfrentá-las com equidade, não em contorná-las com imposições.
A paz duradoura não é imposta, mas construída com o assentimento dos corações e a justiça das mãos.
Fonte original: O Cafezinho
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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