A imagem de um bolo de aniversário adornado com uma forca, celebrando a defesa da pena capital, não é apenas uma anedota política; é uma parábola sombria do tempo presente, onde a ânsia por segurança parece devorar a própria substância da justiça. A ascensão de Itamar Ben-Gvir ao palco central da política israelense, outrora relegado às margens por seus posicionamentos radicais, reflete uma tensão real e legítima na sociedade: o desejo de proteção robusta contra o terrorismo e as ameaças que, para muitos, são existenciais. Contudo, a maneira como essa ânsia é traduzida em política pública merece um escrutínio severo à luz da reta razão e dos princípios imutáveis da ordem moral.
É inegável que Israel enfrenta desafios de segurança complexos e graves. A retórica de Ben-Gvir, que promete uma linha dura e ações decisivas, encontra eco em uma parcela da população cansada de conflitos e que busca na força uma resposta imediata. Esta preocupação, de si, não é ilegítima; o Estado tem o dever primordial de proteger a vida e a segurança de seus cidadãos. No entanto, a legitimidade da intenção não santifica os meios. Quando um ministro da Segurança Nacional celebra publicamente a ideia de enforcamento para terroristas – medida que, na prática, levanta sérias dúvidas quanto à sua aplicação não discriminatória, dada a realidade do conflito israelo-palestino – e responde a sanções internacionais com acusações de antissemitismo para desqualificar críticas válidas, ele não está apenas endurecendo a política: está erodindo os fundamentos da ordem jurídica e moral.
A história de Ben-Gvir, marcada pela identificação com o kahanismo – um movimento banido por suas ideias de expulsão violenta de árabes – e pela manutenção por anos de uma foto de um terrorista, não pode ser ignorada. Ela não é um mero passado superado, mas um indicador de uma visão de mundo que, agora investida de poder estatal, ameaça instrumentalizar as instituições para fins ideológicos. A polícia, por exemplo, sob a tutela de Ben-Gvir, corre o risco de se tornar menos uma guardiã imparcial da lei e mais uma ferramenta para a promoção de uma agenda particular, um movimento que o Papa Pio XII advertiria como a redução do “povo” a uma “massa” manipulada por paixões e slogans. O bem comum de uma nação não se constrói pela divisão calculada ou pela imposição de uma única visão sectária, mas pela coesão de um povo livre sob o jugo de leis justas.
A pena de morte, especialmente quando proposta em um contexto de animosidade e percebida como direcionada a um grupo étnico-religioso específico, entra em direto conflito com a doutrina católica sobre a dignidade da pessoa humana e a retribuição justa. Mesmo que o Estado tenha, em casos extremos e devidamente comprovados, a prerrogativa de aplicar tal pena, a Igreja moderna tem insistido em sua abolição, dada a capacidade dos sistemas penitenciários de proteger a sociedade e o risco inerente de erros e abusos. A instrumentalização da morte legal como símbolo de força, como visto no bolo de aniversário, desfigura o sentido da justiça e a transforma em espetáculo de crueldade.
A arte de governar exige justiça – dar a cada um o que lhe é devido, mas também garantir que o poder estatal seja exercido para o bem de todos, e não como instrumento de vingança ou opressão. Exige também veracidade, especialmente na comunicação pública, para distinguir críticas legítimas de preconceitos reais, em vez de rotular toda oposição como “antissemitismo”. O pragmatismo político de Binyamin Netanyahu, ao legitimar Ben-Gvir para formar uma coalizão, pode ter garantido a governabilidade a curto prazo, mas abriu as portas para uma redefinição do que é aceitável no discurso político, com consequências de longo alcance para a paz social e a estabilidade regional. A sanidade política não se encontra na radicalização que a tudo divide em amigos e inimigos absolutos, mas na capacidade de construir pontes, mesmo em meio à adversidade.
O verdadeiro líder não é aquele que incita a massa à uniformidade simplista, mas quem eleva o povo à unidade pela razão e pela busca da ordem justa. A paz duradoura para Israel, e para a região, não virá do recrudescimento da polarização ou da exaltação de medidas extremas, mas da paciente construção de instituições que sirvam à justiça para todos, que defendam a vida com dignidade e que se baseiem na primazia da lei moral sobre os ímpetos ideológicos. O caminho da segurança autêntica é o da ordem e da veracidade, não o da forca exibida em festa.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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