O palco da inovação em São Paulo, acostumado ao burburinho de algoritmos e futuros luminosos, foi subitamente envolto na sombra de uma advertência ancestral. Dmitri Muratov, laureado com o Nobel da Paz e forjado nas redações de um jornal russo independente, Novaya Gazeta, ergueu a voz para denunciar o que sente ser “a beira de um novo fascismo”. Sua fala, carregada da experiência de quem viu sete colegas perecerem pela busca da verdade e de um jornal silenciado pela censura, é um grito que não podemos ignorar. Mas a gravidade da profecia exige, para além da empatia, um discernimento rigoroso.
A preocupação central de Muratov é legítima e urgente: a erosão da verdade, a proliferação da desinformação via “fake news” e inteligência artificial – exemplificada pela grotesca imagem do Papa Francisco em casaco Balenciaga –, e a perigosa preferência das “convicções pessoais” sobre o fato apurado. Ele testemunha o custo da veracidade: “a mentira custa pouco, mas a verdade custa a vida”. E é essa honesta demanda por uma imprensa que separa a verdade da mentira, mesmo sob risco mortal, que revela a fortaleza moral de jornalistas que, como seus colegas na Rússia, “continuam trabalhando e obtendo as informações necessárias para a sociedade” contra todas as probabilidades. A instrumentalização da democracia por ditadores, que dela se servem para chegar ao poder e jamais o entregar, é uma realidade que Pio XI já condenava como estatolatria, quando o Estado se diviniza e subverte a ordem da pessoa e da sociedade.
Contudo, a palavra “fascismo”, como um veneno histórico, deve ser usada com a precisão de um cirurgião, não com a retórica ampla de um arauto. Reduzir a complexidade de regimes autoritários, populismos iliberais e cleptocracias a uma única categoria de “novo fascismo” pode diluir o rigor do termo e obscurecer as raízes específicas de cada tirania. Como nos lembra São Tomás, a distinção de causas e a acuidade no léxico conceitual são fundamentais para um juízo reto. A ameaça contemporânea, ainda que partilhe características como o desprezo pela verdade, a supressão da liberdade e a massificação, não se configura sempre como o fascismo histórico. Pio XII já advertia sobre a distinção entre “povo” — comunidade orgânica, consciente de seus deveres e direitos — e “massa” — aglomeração informe, facilmente manipulável por forças externas. É essa transformação do povo em massa, seja qual for a roupagem ideológica, que facilita o avanço de qualquer forma de totalitarismo.
Muratov indaga se há demanda pela verdade, ou se as pessoas se contentam com suas próprias convicções. Esta é a questão crucial para a veracidade pública. Não basta que a verdade seja proclamada; é preciso que ela seja buscada, discernida e valorizada por uma sociedade. A comunicação responsável, defendida por Pio XII, não é apenas um dever do emissor, mas uma responsabilidade partilhada com o receptor. A formação moral e cultural, desde a família — a primeira sociedade, segundo Leão XIII — até os corpos intermediários, precisa cultivar as virtudes da laboriosidade e da temperança na busca e no consumo da informação, a fim de que a “verdade custosa” não seja preterida pela “mentira atraente”.
Seu apelo diplomático ao Brasil, no contexto do BRICS, para a libertação de presos políticos na Rússia, reflete uma nobre preocupação com a justiça e a dignidade humana. No entanto, a diplomacia entre nações complexas como as do BRICS opera em um campo minado de interesses geopolíticos e princípios de não-ingerência. A voz do Brasil, embora importante, deve ser empregada com a prudência que distingue o princípio permanente do bem (liberdade dos justos) da aplicação contingente e eficaz. Não se trata de endossar a repressão, mas de reconhecer que a intervenção desprovida de meios adequados pode ser tanto inócua quanto contraproducente.
O desafio que Muratov nos apresenta não é o de nomear um monstro com rótulos do passado, mas de edificar os alicerces de uma sociedade onde a verdade seja o fundamento e a liberdade, ordenada à razão e à virtude, o horizonte. A fortaleza dos que, como os jornalistas do Novaya Gazeta, continuam a “separar a verdade da mentira” apesar do risco à vida, é um farol para todos nós. A luta contra a mentira pública e a supressão das consciências não se vence com o desespero, mas com a persistência de um coração que, sabendo o custo da verdade, não hesita em pagá-lo, dia após dia.
A vida comum não é edificada sobre as areias movediças da mentira conveniente, mas sobre a rocha inabalável da verdade que liberta.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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