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Cisjordânia: Assentamentos e a Demolição da Paz Justa

Potências europeias condenam assentamentos e violência na Cisjordânia. Expansão ilegal destrói paz, justiça e inviabiliza solução de dois Estados, apesar da segurança de Israel.

🟢 Análise

Quando a mão que constrói um assentamento em terra disputada é a mesma que mina a esperança de uma coexistência pacífica, não estamos diante de mera querela territorial, mas da demolição dos alicerces de uma ordem justa. A declaração conjunta de potências europeias – Reino Unido, França, Alemanha e Itália – ao condenar a expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia e a violência de colonos, não é um capricho diplomático, mas um eco da lei natural inscrita no coração da história: a paz não brota da injustiça impune.

Os fatos são intransigentes: uma expansão acelerada de assentamentos, classificados como ilegais pelo direito internacional e confirmada pelo Tribunal Internacional de Justiça, intensificada dramaticamente desde os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023. O projeto E1, em particular, ameaça fatiar a Cisjordânia e isolar Jerusalém Oriental, inviabilizando qualquer esboço de um Estado palestino contíguo. Enquanto isso, a ONU registra mais de mil mortos palestinos, incluindo centenas de crianças, e dezenas de milhares de deslocados nos últimos anos. A violência de colonos, que vai do assédio à destruição de propriedades, do roubo à agressão física, muitas vezes desemboca em assassinatos que, como assinalado, parecem pairar na impunidade.

É inegável que Israel enfrenta desafios de segurança reais e severos, especialmente após a brutalidade do 7 de outubro. A preocupação com a proteção de seus cidadãos e a necessidade de uma Autoridade Palestina estável, unificada e capaz de governar com eficácia e transparência, são preocupações legítimas que a comunidade internacional não pode simplesmente ignorar. A inação ou a fragilidade de uma administração palestina contribuem para o vácuo de ordem, e o ceticismo quanto à viabilidade de uma solução de dois Estados, dadas as realidades no terreno, não pode ser descartado como mero cinismo.

No entanto, o direito à autodefesa, fundamental e inalienável, jamais pode ser invocado para justificar a transgressão sistemática da justiça e da verdade. A justiça exige a responsabilização por cada ato de violência, a proteção dos mais vulneráveis e o respeito pela propriedade e pela dignidade do outro. A expansão de assentamentos sobre terras alheias, acompanhada de coerção e desapropriação, nega o princípio católico da propriedade com função social, que subordina o uso particular ao bem comum, ao invés de transformá-lo em instrumento de dominação. Não se pode construir a própria segurança destruindo a segurança e o futuro do vizinho. Tal caminho, por mais que se prometa proteção, apenas semeia as sementes de novas violências e rancores, num ciclo que a fortaleza cristã nos chama a quebrar.

A paz, como ensina a Doutrina Social da Igreja, não é a mera ausência de guerra, mas a tranquilidade da ordem, fruto da justiça e da caridade. Quando a vida de um povo é reduzida à condição de uma massa a ser deslocada ou contida, quando sua esperança de um futuro digno é sistematicamente minada, a verdadeira paz se torna uma miragem distante. A recusa em reconhecer a legítima aspiração de um povo à autodeterminação, em nome de uma segurança que se torna cada vez mais precária, é um erro de cálculo moral e político.

A pretensão de moldar a realidade pela força, sem a devida observância dos direitos e da lei, é uma ilusão que Chesterton, com sua sanidade paradoxal, bem denunciaria. Pensar que a segurança se consolida pela anexação e pelo isolamento, ou que a estabilidade pode ser comprada com a marginalização, é cair na loucura lógica de uma ideologia que contradiz o próprio fim que busca. A verdadeira humildade requer reconhecer os limites da própria força e a necessidade de uma paz que se sustente na mutualidade do reconhecimento.

O caminho para uma convivência pacífica e duradoura na Terra Santa não pode ser pavimentado com a expansão de ilegalidades e a impunidade da violência. Ele exige um retorno à veracidade nos atos e nas intenções, um compromisso inabalável com a justiça para todos os povos e um reconhecimento sincero de suas legítimas aspirações. É preciso reconstruir, pedra por pedra, a confiança e a legalidade que foram erodidas, para que a paz possa, de fato, ter um lugar para florescer.

Uma paz verdadeira exige que todos os muros sejam derrubados, não apenas os de pedra, mas os de desconfiança e injustiça.

Fonte original: Diario de Pernambuco

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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