A chaga do feminicídio, com seu rastro de dor e brutalidade, clama por uma resposta tão urgente quanto a vida que se perde a cada dia. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao defender a educação como “pilar fundamental” no combate a essa violência, toca num ponto vital: a formação moral da sociedade. É justo e necessário que se ensine, desde a infância, o respeito e a igualdade. Ninguém em sã consciência negaria o papel da escola, da família e das instituições em cultivar virtudes que previnam tais crimes. O repertório do governo empenha-se em ampliar redes de proteção, responsabilizar agressores e reforçar a segurança digital, registrando prisões e atendimentos em volume considerável. Trata-se de um esforço multifacetado que, em suas melhores intenções, reconhece a gravidade do cenário.
No entanto, há uma tensão perigosa quando se elege um “pilar fundamental” sem um discernimento claro da ordem dos bens e da urgência que cada um exige. O feminicídio é um assassinato em curso, uma ferida aberta que sangra no presente. A vida ceifada de uma mulher hoje não espera o fruto de uma lição aprendida na sala de aula por uma geração futura. A virtude da justiça, aqui, não se limita à pedagogia do amanhã; ela exige a proteção efetiva e a punição imediata para as vítimas e seus algozes agora.
A sabedoria tomista nos ensina a hierarquia das causas e dos bens. A preservação da vida inocente é um bem primário e urgente, que demanda intervenção imediata, como se extingue um incêndio. A educação é, sem dúvida, o cultivo paciente do solo para que novos focos não surjam, mas não substitui a brigada de fortaleza que deve combater as chamas presentes. Reduzir a luta contra o feminicídio a uma questão de “comportamento a ser mudado na escola”, embora correto em parte, subestima a profundidade do mal e o caráter estrutural da violência misógina, que transcende a mera “falta de respeito” e se enraíza em uma falha grave na ordem social e nos corações.
O perigo reside em superestimar a capacidade da educação de, por si só, erradicar um fenômeno tão complexo em um período relevante para as vidas em risco hoje. Se a ênfase no ensino desviar recursos e a atenção devida à proteção imediata, à agilidade do sistema judiciário e ao apoio psicossocial eficaz, estaremos trocando uma solução emergencial por uma promessa de longo prazo. A sociedade tem o dever de fortalecer o que está perto e agir onde a vida clama por socorro, não de diluir a responsabilidade presente em uma expectativa geracional. As Casas da Mulher, as prisões realizadas, os dispositivos de rastreamento são a face concreta da justiça que ampara e protege. São ações essenciais que não podem ser subalternizadas.
A educação por missão, como propõe o repertório católico, deve ser um instrumento poderoso de restauração da cultura moral, onde a família é anterior ao Estado como berço do respeito e da dignidade da pessoa humana. Mas mesmo a mais nobre das missões educativas não pode desculpar a inação ou a priorização equivocada diante do mal que se manifesta com urgência. A veracidade nos impõe reconhecer a urgência do problema e a necessidade de que os investimentos e a energia sejam distribuídos de forma equilibrada, para que o futuro não seja construído sobre os corpos das vítimas presentes.
Uma ordem justa não se estabelece com um único “pilar”, mas com um arcabouço sólido onde cada elemento cumpre sua função vital sem invadir a competência do outro. A esperança de um Brasil sem feminicídio exige a paciente laboriosidade na formação das novas gerações, sim, mas exige, em igual e premente medida, a justiça severa e a fortaleza incansável na proteção de cada mulher em risco, de cada vida ameaçada neste exato instante. A verdadeira paz social brota de um terreno onde a semente é cultivada com cuidado, mas onde as ervas daninhas são arrancadas sem demora.
Não basta apenas ensinar a não matar; é preciso impedir que se mate.
Fonte original: Jornal de Brasília
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.