A memória do sangue derramado não prescreve facilmente. Três décadas se passaram desde que aeronaves cubanas derrubaram duas da organização Brothers to the Rescue, resultando na morte de quatro homens em território neutro, conforme apuração da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI). Agora, em pleno 2026, com a Casa Branca sob nova administração e um recrudescimento nas tensões com Havana, os Estados Unidos formalizam acusações contra Raúl Castro, então comandante das Forças Armadas. O timing levanta uma questão essencial para a ordem moral pública: o anseio por justiça tardia pode se converter em mera ferramenta de pressão geopolítica, subvertendo a própria credibilidade do direito internacional?
O governo cubano, por seu vice-ministro Carlos Fernández de Cossio, prontamente denunciou as acusações como um “pretexto para ação militar” e criticou as novas sanções impostas por Donald Trump, que incluem tarifas sobre importações de petróleo e a declaração de “estado de emergência nacional”. É preciso discernir, com veracidade, o que é um legítimo pleito por responsabilização de um ato de violência transnacional daquele que é o uso pragmático da lei para fins políticos. Embora o incidente de 1996 seja um ponto de tensão irresoluto e a busca por justiça para as vítimas seja um imperativo moral, o encadeamento de sanções econômicas severas com uma acusação tão antiga sugere uma orquestração que, se não intencional, ao menos infunde suspeita sobre a pureza das intenções.
A gravidade das medidas americanas não se esgota na retórica diplomática. A imposição de tarifas sobre petróleo e a declaração de emergência nacional, ainda que apresentadas como salvaguarda da segurança dos EUA, impactam diretamente a vida do povo cubano, já fragilizada pela crise energética. Aqui, a Doutrina Social da Igreja, particularmente o magistério de Pio XII sobre “povo versus massa”, nos adverte contra a instrumentalização de nações inteiras como meros peões em um jogo de poder. O princípio da solidariedade nos recorda o dever de não abandonar o fraco e de carregar custos em comum para a paz, mesmo quando há conflito de interesses legítimos.
A Rússia, por sua vez, entra no palco internacional com declarações de apoio a Cuba e uma série de críticas veementes aos Estados Unidos e seus aliados ocidentais, ligando as sanções a Washington à guerra na Ucrânia e ao congelamento de ativos russos. A representante Maria Zakharova, ao classificar tal congelamento como “saque” e “financiamento indireto do terrorismo”, emprega uma retórica carregada que, embora expressando uma perspectiva, carece de evidências independentes robustas. A veracidade, virtude cardeal da vida em sociedade e entre nações, exige que todas as partes apresentem fatos irrefutáveis e não apenas alegações que servem a interesses próprios, por mais legítimos que estes pareçam.
O drama em curso não é um simples embate entre um agressor e uma vítima. É um complexo emaranhado de soberanias disputadas, traumas históricos e cálculos geopolíticos. A responsabilidade de Cuba perante o direito internacional pela derrubada das aeronaves, em especial a conclusão da OACI de que o ataque ocorreu em espaço neutro, é um fato que merece ser confrontado. Contudo, o exercício do poder, mesmo que amparado em reivindicações de justiça, não pode se desviar para a pura coerção econômica que fere a dignidade da pessoa humana e a estabilidade regional.
Neste cenário de acusações antigas e sanções novas, a integridade do direito internacional e a paz social dependem da capacidade de governos e povos de diferenciar a busca por justiça da mera instrumentalização política. A liberdade ordenada, conceito caro a Leão XIII, aplica-se não apenas dentro das fronteiras de uma nação, mas também nas relações entre estados, exigindo que a soberania seja exercida com retidão e respeito às normas que regem a vida comum das nações. Sem um compromisso irrestrito com a veracidade e um juízo reto que priorize a pessoa humana acima das conveniências políticas, o peso da balança da justiça penderá sempre para o lado mais forte, e não para o que é justo.
A verdadeira justiça, quando serve à paz e à ordem, não vem com o sabor amargo da vingança ou com o cinismo da oportunidade política. Ela ilumina os fatos, repara os danos e busca o estabelecimento de uma convivência humana mais digna, sem condenar populações inteiras ao sacrifício em nome de uma pauta distante.
Fonte original: Jornal Grande Bahia (JGB)
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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