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América Latina: Ajustes Dolorosos e a Impopularidade

Presidentes como Milei enfrentam impopularidade por ajustes econômicos na AL. Analisamos a tensão entre reformas necessárias e o sofrimento social, buscando a justiça e coesão.

🟢 Análise

A quebra do consumo nas feiras e a porta fechada das lojas não são meros números de balanço para analistas frios; são feridas abertas no tecido de famílias que contam cada centavo, são sonhos adiados e a dignidade do labor comprometida. A realidade brutal da queda de popularidade de presidentes como Javier Milei na Argentina, Rodrigo Paz na Bolívia e José Antonio Kast no Chile, que vêm enfrentando protestos massivos, fechamento de empresas e perda de empregos em seus respectivos países, é um lembrete contundente de que a política não se faz apenas com ideias, mas com a carne e o osso de um povo que sofre. A marcha em defesa da universidade pública argentina, os bloqueios de estrada na Bolívia por escassez de combustíveis e as repressões a estudantes no Chile não são, em sua essência, apenas atos de rebeldia política; são, muitas vezes, expressões de um desespero legítimo diante do impacto imediato de medidas econômicas.

No entanto, seria um reducionismo perigoso e uma leviandade intelectual atribuir tal descontentamento unicamente à “maldade” de “ajustes” ou à “direita”. Há, não raro, uma amarga verdade que precede o remédio: a doença crônica da má gestão, da dilapidação de recursos, da inflação galopante e dos déficits insustentáveis legados por administrações anteriores. É a herança de uma casa que, embora pareça ter paredes bem pintadas, tem suas fundações corroídas e seu telhado prestes a ruir. A impopularidade, nesse contexto, pode ser o preço que se paga por tentar estabilizar uma estrutura à beira do colapso, onde a resistência não vem apenas do sofrimento genuíno, mas também de interesses estabelecidos que se beneficiavam da desordem ou de privilégios insustentáveis.

O Magistério social da Igreja, desde Leão XIII, ensina que a liberdade econômica deve ser ordenada à justiça, e que a propriedade, com sua função social, não pode ser um fim em si mesma. Pio XI, por sua vez, nos lembra do princípio da subsidiariedade, que busca fortalecer os corpos intermediários da sociedade — a família, as associações, as empresas locais — contra a tentação da estatolatria, onde o Estado se arroga o direito de absorver todas as iniciativas e responsabilidades. Quando o Estado falha em sua função de salvaguardar a ordem justa e permite que o patrimônio público seja esvaziado, ou quando gera desequilíbrios econômicos profundos, ele falha em seu dever fundamental. A tentativa de corrigir esses rumos, por mais dolorosa que seja, pode ser um imperativo moral para a paz social e a prosperidade duradoura.

Contudo, a necessidade de ajustes não autoriza a desumanidade ou a leviandade. A justiça exige que o fardo da correção seja distribuído com equidade, protegendo-se os mais vulneráveis. A veracidade, uma virtude cardinal na vida pública, impõe aos governantes o dever de comunicar com clareza a real extensão da crise herdada e a rationale de suas políticas, sem recorrer a insultos ou a uma retórica que aprofunda as divisões. Quando governantes, como Milei, retomam o hábito de agredir publicamente, ou quando a polícia reprime estudantes que exercem seu direito de manifestação, a autoridade legítima se fragiliza e o diálogo se torna impossível. Chesterton, em sua sanidade contra a loucura lógica das ideologias, diria que o grande perigo é confundir a austeridade necessária com uma austeridade brutal, ou a reforma com a mera demolição sem um plano de reconstrução.

A tarefa de reconstruir uma nação não é para os fracos de espírito, mas exige uma profunda humildade para reconhecer os limites do poder e uma caridade que se estenda aos que sofrem os impactos da transição. A busca de diálogo, a troca de ministros, a atenção às demandas legítimas — como as que Rodrigo Paz na Bolívia parece ter ensaiado — são sinais de que a política, para ser eficaz e justa, deve sempre ter como horizonte a dignidade da pessoa e a coesão social. Governos que apenas impõem sem mitigar, ou que reprimem sem ouvir, condenam-se à instabilidade e, por vezes, à esterilidade de suas próprias reformas.

Não se edifica uma casa nova sem retirar os entulhos do passado. Mas a poeira da demolição não pode cegar os olhos para a necessidade de erguer um novo lar, com alicerces sólidos de justiça e veracidade, onde a família e os corpos intermediários da sociedade floresçam, e não sejam esmagados pela arrogância de uma engenharia econômica desprovida de alma. A verdadeira força de um governo não reside na impopularidade momentânea, mas na capacidade de converter o sacrifício presente em uma esperança concreta de uma ordem mais justa e livre para as gerações vindouras.

A reforma mais profunda não é a econômica, mas a moral, que permite erguer um edifício social sobre os escombros da crise com a paciência de quem sabe que a cidade dos homens se constrói passo a passo, e a do céu, eternamente.

Fonte original: Brasil 247

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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