O ronco de um motor, a lâmina de um barco a cortar as águas, a prontidão de um uniforme – estes são os sons e as imagens de um serviço público que se espera essencial e constante. A entrega de novas ferramentas para o Corpo de Bombeiros de União da Vitória, celebrada com pompa e discursos, deveria ser um momento de gratidão cívica inconteste. Contudo, em matéria de governo, o que reluz no pódio nem sempre se sustenta na base.
Viatura, bote inflável, barco de alumínio e uma moto aquática de “última tecnologia e de primeiro mundo”, vinda da Suécia – os novos recursos para o combate às emergências aquáticas são, sem dúvida, um acréscimo à capacidade operacional. Os militares receberam treinamento, as autoridades aplaudiram a si mesmas, e a necessidade de preparar-se para inundações e resgates foi solenemente afirmada. Mas quando o aparato governamental se reúne para ostentar um investimento tão específico, uma pergunta incômoda se impõe: a quem realmente serve a narrativa de modernidade e ‘primeiro mundo’? É um investimento prioritário para a segurança do cidadão, ou um espetáculo para a galeria política, com forte componente de visibilidade eleitoral?
A Doutrina Social da Igreja nos lembra que a administração dos bens comuns é um exercício de justiça. Os recursos públicos não são propriedade discricionária de um grupo político, mas o fruto do trabalho dos cidadãos, destinados ao bem-estar de todos. Priorizar uma aquisição de ‘última tecnologia’ e de alto impacto midiático, sem um detalhamento transparente do custo-benefício e dos critérios objetivos que a fizeram prevalecer sobre outras demandas do estado, é comprometer a probidade que se exige de todo governante. A realeza social de Cristo, que Pio XI nos exortou a reconhecer, demanda que o poder seja exercido em serviço humilde, não em autopromoção.
A subsidiariedade nos ensina que as decisões devem ser tomadas o mais próximo possível de onde os problemas se manifestam, mas também que os recursos devem ser distribuídos com equidade entre as diversas comunidades. Destinar uma das poucas motos aquáticas de ponta a uma região com forte presença de lideranças políticas, sem clareza sobre como outras localidades com necessidades similares são atendidas, pode gerar uma assimetria preocupante. A promessa de uma nova sede para o Corpo de Bombeiros, ainda em fase de “busca por recursos” após a doação do terreno pela prefeitura, sublinha essa tensão: o que é marketing político hoje pode ser omissão amanhã. O povo não é massa a ser iludida por promessas; é uma comunidade com direitos e necessidades concretas, como nos lembrou Pio XII.
O próprio Chesterton, com sua perspicácia para desmascarar a ‘loucura lógica’ das ideologias modernas, talvez ironizasse o fascínio por equipamentos exóticos e importados, enquanto a solidez da infraestrutura básica, o aprimoramento contínuo do efetivo e a clareza orçamentária permanecem nas sombras. A sanidade, afinal, reside em valorizar o que é substancial, não o que é meramente espetacular, e em reconhecer que a humildade do serviço muitas vezes se faz em atos menos glamourosos, mas igualmente essenciais.
Não se trata de negar a importância da modernização, mas de exigir que ela esteja a serviço da caridade e da laboriosidade – a primeira, no zelo efetivo pelo próximo; a segunda, no bom e reto uso dos recursos e na gestão diligente. A verdadeira magnanimidade na política não se mede pela aquisição mais cara ou pela manchete mais chamativa, mas pela capacidade de construir uma ordem justa e duradoura, onde o ofício de governar seja pautado pela veracidade e pela responsabilidade para com cada cidadão.
O ofício público exige mais que a exibição de novas ferramentas; exige o compromisso inabalável de que cada investimento seja um alicerce de serviço real, não uma miragem erguida sobre a areia da vaidade política.
Fonte original: Vvale
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.