Um estaleiro de obras parado, com suas fundações expostas ao sol e vigas enferrujando, é um epitáfio silencioso para as promessas de progresso. Na Bahia, essa imagem se materializa nas rodovias de pavimentação paralisada e nos canteiros abandonados, onde os contratos de 2022, que deveriam ter sido honrados, se acumulam como entulhos. O descontentamento das lideranças do interior, a recusa de empresas em assumir novos projetos sem a quitação de dívidas antigas, e a peregrinação de prefeitos e empresários à Secretaria de Infraestrutura em busca de respostas, tudo isso aponta para uma falha grave na justiça contratual e na responsabilidade elementar do governo. O descumprimento de compromissos não é apenas uma questão burocrática; é uma violação da fé pública e da dignidade do trabalho.
Mas a paralisia da máquina pública vai muito além do asfalto. O relatório do Índice de Progresso Social (IPS) de 2026 coloca a Bahia como o sexto pior estado do país, amargando a 22ª posição em qualidade de vida. Os números de desemprego, extrema pobreza, analfabetismo adulto e, mais alarmante, a maior taxa de homicídios do Brasil, são um clamor por justiça social. A vida comum dos baianos deteriora-se sob o peso de uma gestão que parece incapaz de assegurar o mínimo necessário para a prosperidade do povo. A crescente onda de abigeato, com criminosos agindo impunemente e açougues coniventes, é um sintoma brutal dessa fragilização da ordem moral pública, onde nem a propriedade mais básica do produtor rural é protegida.
A esse cenário somam-se as denúncias de irregularidades em convênios do governo com prefeituras, confirmadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-BA) em 2022 e que, lamentavelmente, se repetem em 2026. A alegação de que “não houve prejuízo aos cofres públicos” não apaga a sombra da opacidade e da má gestão. Quando o governador se esquiva de responder a questionamentos sobre a precariedade da saúde ou a insegurança rural, como ocorreu em Jacobina e Nova Ibiá, revela-se uma carência de veracidade e honestidade que corrói a confiança no diálogo público. A autoridade legítima, para ser respeitada, precisa antes de tudo prestar contas com clareza e sem rodeios.
É lícito reconhecer que os desafios de uma gestão estadual são multifatoriais e que a complexidade dos problemas sociais não pode ser reduzida a um único fator histórico ou a “duas décadas de PT no poder”. A tese de que haveria um “gabinete paralelo” sob influência do ex-ministro Rui Costa, embora presente nos bastidores, não dispõe de provas concretas que a elevem de especulação a fato comprovado. No entanto, essas ressalvas não podem servir de escudo para a inação do governo. A subsidiariedade exige que as instâncias superiores apoiem, e não sufoquem, as comunidades locais, e que o Estado cumpra o seu dever inalienável de garantir a infraestrutura, a segurança e a justiça. O que se observa, contudo, é uma falha em todos esses campos, onde a incapacidade de concretizar promessas e enfrentar a realidade agrava o sofrimento dos mais vulneráveis.
A gestão pública não é um palco para discursos de autoelogio, mas um laboratório de serviço e entrega. A deterioração dos indicadores sociais e a paralisia das obras, somadas à falta de transparência e à evasão de respostas, denunciam uma crise de governança que exige uma reorientação radical para os princípios de uma vida comum justa. É preciso que a máquina pública volte a funcionar com laboriosidade e magnanimidade, olhando não para os espelhos da vaidade eleitoral, mas para o rosto real de cada baiano.
A capacidade de governar, afinal, não se mede pelos anúncios grandiloquentes, mas pela concreta entrega de justiça e pela integridade de cada promessa cumprida.
Fonte original: Correio
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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