A política é, em essência, uma arte da visão. Há quem enxergue com a lente do microscópio, atento aos detalhes e às minúcias da rua, do bairro, da cidade. E há quem deveria enxergar com o telescópio, perscrutando horizontes, conectando estrelas distantes em uma mesma constelação. A pré-candidatura do vereador Edison Parra à Assembleia Legislativa de São Paulo, lançada com a promessa de uma “verdadeira representação” para São Caetano e de mais recursos para o município, coloca em relevo esta distinção fundamental.
É legítimo que um vereador defenda com vigor os interesses de sua terra natal, e a busca por maior captação de recursos, bem como a experiência em fiscalização — como a adquirida em uma CPI da Dívida — são credenciais válidas na arena municipal. Ninguém contesta a lealdade ao torrão. Mas o mandato de deputado estadual possui outra tessitura, outro alcance. É um convite não a defender uma ilha, mas a navegar por todo o arquipélago, a legislar para um estado de milhões de habitantes e centenas de cidades, cada qual com suas próprias urgências e identidades.
A Doutrina Social da Igreja, especialmente pelas lentes de Pio XI e Pio XII, ensina-nos sobre a primazia do bem comum e a exigência de que as instâncias superiores da sociedade atuem com uma visão abrangente, que supere os particularismos. O princípio da subsidiariedade não é um salvo-conduto para o localismo autônomo, mas um chamado a que as decisões sejam tomadas no nível mais próximo possível dos cidadãos, sim, mas sempre em vista do bem de toda a comunidade política maior. Um deputado estadual que reduz sua missão à mera captação de verbas para sua base eleitoral de origem, por mais nobre que seja essa intenção local, corre o risco de desvirtuar a própria função legislativa.
A crítica à “concentração política” e o anseio por “renovação” são ecos sinceros em qualquer democracia. Todavia, a voz que os profere deve guardar uma coerência com a própria trajetória. Um político em seu quarto mandato como vereador, cuja permanência no poder local já é uma forma de consolidação, ao propor-se como “renovador” em um novo palco, suscita uma interrogação sobre a veracidade de sua mensagem. Não é a longevidade em si um demérito, mas a ausência de autocrítica sobre a própria contribuição para o status quo que se diz combater. Como observaria um Chesterton em seu melhor paradoxo, é preciso grande sanidade para não cair na armadilha de denunciar o sistema sem reconhecer o próprio lugar nele.
A Assembleia Legislativa não é um balcão de negócios para emendas municipais, mas o fórum onde se desenham as grandes políticas públicas para a saúde, educação, segurança e infraestrutura que afetam todos os cidadãos do estado. O representante que ali chega com a bússola apontada apenas para uma única cidade, negligencia as demandas de outras regiões, as pautas estruturais que transcendem fronteiras municipais e a intrincada teia de interesses que compõe a vida coletiva estadual. A justiça distributiva exige que o olhar do legislador não se limite ao próprio quintal.
O cargo de deputado estadual exige uma magnanimidade de espírito, uma capacidade de elevar o debate e de pensar para além das fronteiras do próprio curral eleitoral. Exige um juízo reto que discirna entre o interesse particular, por mais legítimo que seja em seu nicho, e o destino comum da coletividade estadual. É preciso construir pontes, não apenas erguer cercas em torno da propriedade particular. A arte da política é, antes de tudo, a arte de governar para todos, sem diluir a força de nenhuma parte, mas sempre fortalecendo o todo.
O clamor por “representatividade” e “recursos” é compreensível, mas a lente que um deputado estadual empunha deve ser a de um estadista em miniatura, capaz de ver o estado em sua plenitude. Sem essa visão ampla, o que se oferece não é renovação, mas a repetição, em outra escala, do mesmo apego ao fragmento, quando o que se espera é a inteligência que unifica e serve a uma pátria maior.
Fonte original: RD – Jornal Repórter Diário
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.