A pretensão de um prefeito, por mais que se julgue zeloso de sua cidade, em ditar a escolha de seus representantes legislativos estaduais, ecoa uma distorção perigosa da ordem política e da reta compreensão do bem comum. Marcelo Lima, de São Bernardo, faz soar o tambor da conveniência eleitoral, ao conclamar os munícipes a elegerem “deputados e deputadas na eleição agora de outubro que não tenham compromisso com a cidade”, e a apoiar seus pré-candidatos sob a alegação de que estes, sim, “irão ajudar”. No cerne dessa retórica reside uma legítima preocupação com a captação de recursos e a coordenação intergovernamental, mas a forma de encaminhá-la é, no mínimo, oblíqua, e na pior das hipóteses, um atentado à veracidade e à justiça do processo eleitoral.
A primeira falácia reside na redução do papel do deputado estadual à mera função de “captador de recursos” ou de “braço” do executivo municipal. Um legislador, por sua própria natureza e distinção de causas, é chamado a deliberar sobre as leis que regem todo o estado, a fiscalizar o executivo — inclusive aquele do seu próprio partido ou base — e a representar uma multiplicidade de vozes e interesses que coexistem na polis. A visão que limita a representação a um mero apêndice da máquina municipal desconsidera o princípio da subsidiariedade, tão caro à Doutrina Social da Igreja, que preconiza a autonomia de cada esfera de governo e de cada corpo social, evitando que o nível superior assole ou coopte o inferior. Quando um prefeito tenta pautar a eleição de deputados como se estes fossem seus prepostos, ele trata a Assembleia Legislativa como uma extensão da prefeitura, e não como um poder autônomo.
Mais grave ainda é a instrumentalização da figura do prefeito, com seu prestígio institucional e acesso privilegiado aos meios de comunicação, para guiar o discernimento eleitoral. Ao declarar que “não estou fazendo pré-campanha antecipada”, pois não será candidato este ano, mas, na mesma frase, prometer que “no momento correto, que a lei me permitir, vou para as ruas falar quem está ajudando, quem não está e quem tenho certeza que vai ajudar”, o prefeito pratica uma manobra discursiva que beira o paradoxo. Chesterton, com sua sagacidade invulgar, certamente apontaria a ironia de um líder que, ao se despir da condição de candidato, veste-se da de grande eleitor, manipulando a narrativa sobre “compromisso” e “ajuda” para favorecer seus afilhados políticos. A sanidade cívica, afinal, exige que chamemos as coisas pelos seus nomes.
A generalização de que “alguns parlamentares eleitos com votos em São Bernardo não estão colaborando com o envio de recursos” é um ataque à veracidade do debate público. Sem nomes, sem fatos concretos, a acusação se dissolve em um boato conveniente, que serve para desqualificar qualquer voz dissonante e pavimentar o caminho para os “aliados”. A política de cooptação, vestida com a roupagem do “bem da cidade”, ignora que o verdadeiro bem comum floresce na pluralidade de ideias e na fiscalização mútua entre os poderes, e não na homogeneidade de um alinhamento imposto. Pio XII, em sua crítica à massificação, advertia para o perigo de reduzir o “povo” a uma “massa” facilmente manipulável por discursos unidirecionais, desprovidos de um juízo reto e de informação completa.
Não se trata de negar a importância da colaboração entre os entes federativos, mas de defender a integridade do processo democrático e a autonomia da representação. Os cidadãos de São Bernardo, como todos os eleitores, têm o direito de escolher seus representantes com base em propostas, histórico e princípios, e não por uma diretriz que confunde a agenda do governo municipal com o projeto de cidade, ou que moraliza a divergência política. A eleição é um ato de confiança que se deposita em um indivíduo para representar o corpo social em sua complexidade, e não para ser um mero correia de transmissão de interesses executivos.
A cidade, afinal, não é um feudo a ser gerido apenas pelos seus líderes de ocasião, nem o legislativo, um quintal onde se plantam apenas os amigos do rei. É um organismo vivo, uma civitas, que exige a multiplicidade de vozes e a dignidade de cada função para prosperar em uma ordem justa.
Fonte original: Jornal Diário do Grande ABC
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.