Quando a balança da justiça pende para um lado, por vezes, não é apenas o peso da culpa que a inclina, mas a mão invisível da conveniência política. A notícia do iminente indiciamento de Raul Castro pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, por ordenar o abate de aviões humanitários em 1996, surge com a gravidade de um tribunal, mas na aura nebulosa de um ano eleitoral. Não há como negar a hedionda brutalidade do ato: quatro vidas ceifadas em águas internacionais, por ordem de um regime que se blindava na paranoia, contra uma missão de auxílio que apenas buscava a liberdade para os seus. A dor das famílias das vítimas é real, e o clamor por justiça, legítimo. A gravação clandestina do próprio Castro admitindo a ordem é uma prova que não se cala.
Mas a reta razão, iluminada pela `veracidade`, exige que não nos contentemos com a primeira camada do drama. O timing deste indiciamento, décadas após o crime e com o ex-chefe de Estado a completar 94 anos, em meio a uma corrida eleitoral em que a Flórida desempenha papel central, lança uma sombra sobre as intenções. Seria esta uma genuína busca por reparação e ordem, ou uma manobra de cálculo político, desenhada mais para consumo interno do que para a efetivação de um julgamento? A assimetria de poder entre os Estados Unidos e a ilha caribenha é gritante, e a unilateralidade na aplicação de sanções e jurisdição levanta dúvidas sobre o respeito à soberania e às normas do direito internacional. A `justiça` não pode ser uma ferramenta de agenda partidária, nem um instrumento retórico para a projeção de força.
A Doutrina Social da Igreja, especialmente pelas lentes de Pio XII, adverte-nos sobre a distinção entre o `povo` e a `massa`. Enquanto o regime cubano, com seus altos funcionários e aparatos repressivos, é o alvo das sanções e do indiciamento, é o povo cubano, a massa anônima, quem suporta o peso mais brutal destas medidas. A intensificação das sanções no setor de energia e bens essenciais, sob o pretexto de pressionar por direitos humanos, contraria a própria finalidade anunciada se, na prática, agrava a crise humanitária e o sofrimento diário da população. A licença que permite a negociação de petróleo russo, mas que explicitamente exclui Cuba, ou a incerteza de petroleiros com diesel que ficam à deriva, são exemplos de uma política que afoga o povo enquanto mira o regime.
A ajuda humanitária do México e do Uruguai, embora bem-vinda, revela o paradoxo. Por um lado, sanções apertam; por outro, comida e medicamentos chegam em caráter de emergência. A opacidade na distribuição e as denúncias de cubanos sobre a chegada deficiente da ajuda na ilha apenas confirmam que a via da desestabilização raramente é o caminho para a libertação. Não se fomenta a democratização ao custo da fome e da miséria, mas por meio de uma ordem justa que respeite a `dignidade da pessoa humana`, mesmo sob um regime tirânico. A instrumentalização da lei, que por sua própria natureza deveria ser um baluarte de imparcialidade e previsibilidade, transforma-a em um capricho do poder, minando a confiança e a legitimidade que busca inspirar.
A pergunta que ecoa, portanto, é sobre a coerência: qual o plano realista para levar um homem de 94 anos a julgamento, residindo em seu próprio país, sem recorrer a meios que poderiam agravar a instabilidade regional ou incitar uma escalada desnecessária? A aplicação de sanções e o indiciamento não podem ser fins em si mesmos, mas meios ordenados a um fim justo e alcançável. Se a finalidade é a `realeza social de Cristo` e a instauração de uma ordem justa, os meios devem ser proporcionais e não podem converter-se em nova fonte de injustiça e sofrimento para aqueles a quem se diz querer libertar.
A verdadeira `justiça` é um farol que guia, não uma fumaça que cega, e seu custo maior reside na dignidade humana, jamais em meros cálculos de poder.
Fonte original: PetroNotícias
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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