O palco da política do Distrito Federal, montado para a próxima temporada eleitoral, acaba de testemunhar mais um ensaio de “realinhamento de posições” entre o ex-governador Ibaneis Rocha e a atual governadora Celina Leão. Por trás do linguajar de bastidores — “decepções”, “novo governo”, “preparativos para o divórcio” —, esconde-se a ausência de um princípio basilar da vida pública: a veracidade. Os cidadãos do DF, em vez de um debate sobre a substância da gestão, são brindados com o espetáculo da deslealdade política, onde o legado de outrora vira motivo de discórdia e as promessas de continuidade, de súbita ruptura.
A retórica de que “sucessão nunca será submissão” e a busca por uma “personalidade” própria no governo são, em si, legítimas aspirações de qualquer administrador. Mas quando a vice-governadora de ontem, que dividiu os louros de “sete anos de avanços”, denuncia agora “graves crises” e um “rombo bilionário” na mesma gestão da qual fez parte, a pergunta pela honestidade dos fatos se impõe. Seria a descoberta tardia de problemas estruturais que antes eram ignorados, ou uma conveniente reescrita da história para justificar novos cálculos eleitorais? A verdade, nesse caso, não é um detalhe; é o alicerce da confiança pública.
Ibaneis Rocha, por seu turno, lamenta “decepções” e a suposta divergência de Celina da “linha de progresso e desenvolvimento da cidade”. Contudo, sua denúncia surge às vésperas de uma disputa eleitoral, e as “muitas decepções” permanecem envoltas em generalidades, sem o detalhamento necessário para que o público avalie a justeza de suas queixas. A instabilidade administrativa do Distrito Federal é um custo que o povo não deveria pagar pela opacidade das negociações políticas e pela conveniência de se apontar dedos quando a conveniência exige.
Aqui, o Magistério da Igreja, em particular Pio XII, nos recorda a distinção crucial entre “povo” e “massa”. O povo, consciente e participante, exige transparência e clareza de seus governantes. A massa, ao contrário, é manipulada pela propaganda e pela retórica vazia. A encenação de “realinhamentos” sem o devido esclarecimento das causas e responsabilidades é um tratamento da população como massa, não como povo. O bem comum da cidade e a estabilidade das políticas públicas devem sobrepor-se às manobras para a formação de chapas majoritárias.
Não se trata de negar a vitalidade do debate político ou o direito dos atores de reconfigurarem suas alianças. Mas essa dinâmica, para ser virtuosa e justa, deve pautar-se pela veracidade e pela responsabilidade. Quais os reais termos dos “combinados”? Por que as “crises” não vieram à tona com a mesma publicidade quando as partes eram aliadas? A `justiça` exige que os encargos da governança e as falhas sejam devidamente atribuídos, e não simplesmente transferidos para o adversário recém-criado na arena eleitoral. O que se espera de líderes é o discernimento prudente e o compromisso firme com a ordem moral pública, não a fluidez camaleônica de quem veste a roupa que melhor lhe convém ao momento.
A verdadeira vocação do poder público não reside em sua capacidade de encenar dramas partidários, mas em sua aptidão para edificar uma cidade justa e bem governada. O edifício da vida comum requer fundações de verdade e paredes de probidade, sem as quais qualquer “realinhamento” não passa de uma maquiagem sobre fissuras que o tempo inevitavelmente irá expor.
Fonte original: Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.