A intrincada trama da política, em seus momentos mais rasteiros, costuma revelar a primazia dos interesses sobre os princípios, trocando o serviço público pelo cálculo eleitoral. O que se desenrola no Distrito Federal, entre o ex-governador Ibaneis Rocha e a governadora Celina Leão, não é um mero realinhamento de forças, mas um sintoma de uma febre eleitoral prematura que ameaça desviar o olhar do governante do seu dever mais imediato: a zeladoria da casa comum.
O anúncio de Ibaneis Rocha, ladeado pela cúpula do MDB, soa como um ultimato velado. Embora se apresse em negar um “rompimento definitivo” – preferindo a eufemística “fase dos preparativos” –, a intenção de seu partido de não abrir mão da chapa majoritária em 2026 é cristalina. As “decepções” alegadas com a gestão de Celina Leão, sem que se lhes outorgue corpo ou especificidade, pairam no ar como fantasmas retóricos, convenientemente evocados para justificar uma jogada de xadrez que se projeta para bem além do tabuleiro presente. A fala de Ibaneis sobre ter “plantado” e tirado o DF de um “desastre” anterior, ao mesmo tempo em que acusa Celina de querer “um novo governo em três meses”, expõe uma contradição primária: a reivindicação da paternidade da boa gestão não pode, por si só, sufocar a prerrogativa do sucessor legítimo de imprimir sua própria marca e, se necessário, corrigir rumos.
E aqui reside a preocupação legítima mais forte. Quando a política se antecipa de tal forma ao calendário cívico, os verdadeiros prejudicados são os cidadãos, cuja vida se vê enredada em debates de corredor, enquanto a administração dos problemas reais, esses sim urgentes, fica em segundo plano. A governadora Celina Leão, ao responder com “serenidade” e focar na “solução dos problemas do Distrito Federal”, ao menos em sua retórica pública, toca numa fibra essencial. Sua afirmação de que “Sucessão nunca será submissão” não é apenas um refrão de campanha, mas a defesa de uma autonomia legítima do cargo, que exige do eleito a responsabilidade de governar, e não apenas de ser um preposto de seu antecessor ou de seu partido. A alegação de Celina de ter herdado um “rombo bilionário” e um “BRB quebrado”, se verídica, reforça a urgência de uma gestão com caráter próprio, capaz de enfrentar os desafios com as mãos desatadas.
A Doutrina Social da Igreja, ao delinear os princípios da autoridade legítima e da subsidiariedade, oferece uma lente clara para este cenário. A autoridade, tal como São Tomás de Aquino nos ensina, deve ordenar-se ao bem da cidade, e não ao bem particular de grupos ou partidos. O exercício do governo, uma vez outorgado pelo povo, exige que o governante tenha a liberdade de agir com prudência e justiça, buscando a melhor solução para a coletividade. Exige-se, portanto, um compromisso com a veracidade na esfera pública: as críticas devem ser concretas, as “decepções” devem ser nomeadas, e as intenções eleitorais devem ser tratadas como tal, e não como disfarces para um zelo subitamente despertado pelo “desastre” iminente.
A insistência de um partido em “não abrir mão” de um espaço na chapa majoritária, a quase um ano e meio das eleições, quando o mandato em curso ainda está longe do meio, não se coaduna com a noção de uma vida política bem ordenada. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, advertia para os perigos de uma absorção da máquina pública por interesses partidários, que transformam o governo de instrumento de serviço em botim de disputa. O MDB, ao enfatizar seu “espaço conquistado”, parece confundir a esfera do poder com a esfera do serviço. O verdadeiro “avanço” e “melhora na qualidade de vida” dos cidadãos não se mede pelo número de cadeiras em uma chapa, mas pela laboriosidade e responsabilidade com que os problemas cotidianos são enfrentados, as contas são auditadas e os projetos são executados sem entraves artificiais.
A movimentação de Ibaneis Rocha, por mais que se vista em roupagens de continuidade e preocupação com o futuro, parece ser mais um gesto de magnanimidade desviada, buscando consolidar um legado e uma influência que, embora legítimos em seu tempo, não podem se impor como veto perpétuo à autonomia de uma nova gestão. A cidade não é um mero palco para aspirações políticas futuras, mas o lar de milhões de pessoas que dependem de uma gestão focada e íntegra *agora*.
O realinhamento de posições, portanto, deve ser lido com a clareza exigida pela verdade: é o barulho ensurdecedor da máquina eleitoral se aquecendo muito antes da hora, correndo o risco de fundir as engrenagens da administração. A autoridade, para ser respeitada, não pode ser refém de chantagens veladas ou de “preparativos” que, no fundo, servem apenas aos interesses de poucos. O Distrito Federal merece um governo que se dedique com inteireza à sua vocação de servir, sem o ruído constante de quem já pensa no próximo assalto ao poder. O caminho da ordem passa pela distinção clara entre os tempos de governar e os tempos de eleger, e pela primazia inegociável do bem da cidade sobre a ambição de qualquer facção.
Fonte original: Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.