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Profissionais Medianos: Ascensão na Tirania e Corrupção da Consciência

A ambição de profissionais medianos revela-se pilar de ditaduras. Em troca de carreira, consciência é sacrificada, corrompendo instituições. Analisamos o paradoxo da mediocridade funcional.

🟢 Análise

O estudo recente que aponta os “profissionais medianos” em busca de promoção como sustentáculo fundamental de ditaduras lança uma luz incômoda sobre a face mais banal, e por isso mais traiçoeira, da tirania. Não é apenas a ideologia fanática ou o terror explícito que movem a máquina opressora; é, com frequência, a pequena e mesquinha ambição de quem, calculando cada passo, escolhe a carreira em detrimento da consciência. Uma verdade que destrói a dignidade do trabalho humano, rebaixado a engrenagem fria que esmaga vidas em troca de um degrau na escada burocrática.

Adam Scharpf e Christian Glassel, ao perscrutar as entranhas das Forças Armadas argentinas durante a Guerra Suja, desnudaram um sistema perverso. Oficiais com desempenho acadêmico inferior, longe de serem descartados, encontravam no temível Batalhão de Inteligência 601 um atalho para ascensão. Ali, os menos aptos eram direcionados às tarefas mais brutais — tortura e assassinato — colhendo em troca carreiras mais longas, salários robustos e aposentadorias seguras. Não se trata de negar a força avassaladora da ideologia ou o pavor da retaliação, fatores cruciais para entender a opressão. Mas a pesquisa sublinha uma motivação mais insidiosa: a busca egoísta por ascensão num sistema que, como um ímã perverso, atrai e recompensa a mediocridade funcional. O vício se torna virtude, e o serviço ao mal, um trampolim.

Este mecanismo perverte a ordem da justiça e a primazia do bem da cidade, corrompendo as instituições e os indivíduos de dentro para fora. São Tomás de Aquino nos ensina que o bem da sociedade não é a mera eficiência, mas a virtude dos cidadãos e a paz ordenada, e que toda autoridade legítima se ordena a este fim. Contudo, na autocracia, o Estado se diviniza — a velha estatolatria denunciada por Pio XI — exigindo uma lealdade cega que oprime o povo e o transforma em massa passiva, como advertia Pio XII. Quando a promoção de carreira se desvincula do mérito e da probidade, passando a depender da subserviência e da crueldade, os bens internos da profissão são aniquilados. A dignidade da pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus, é rebaixada a mero instrumento da máquina de poder, trocando sua consciência por um posto, seu juízo reto por uma promoção.

A triste repetição desse padrão ressoa em várias paragens da história. Da NKVD soviética, que deliberadamente recrutava indivíduos com poucas habilidades formais para seu terror em 1937, até as “autocracias eleitorais” de hoje, como a Hungria de Viktor Orbán, onde “carreiristas” do judiciário são cooptados para “fazer o trabalho sujo” e contornar a lei. Na Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, a Guarda Nacional, de menor prestígio, é instrumentalizada para reprimir a oposição, enquanto seus membros recebem promoções e ascendem na hierarquia política. É o avesso da subsidiariedade, onde o poder central esmaga e manipula os corpos intermediários e as consciências individuais para seus próprios fins espúrios, transformando a busca por estabilidade e ascensão em cumplicidade ativa. A competência é sacrificada no altar da lealdade cega, e a veracidade é a primeira vítima, não só nos tribunais ou nos quartéis, mas na alma de cada um.

E é aqui que o paradoxo chestertoniano se manifesta com força brutal: a loucura não está sempre no grito do fanático, mas muitas vezes na fria e calculista sanidade do mediano que vende sua alma por um aumento. Não é o homem louco que tenta mover o sol, mas o homem “são” que, em sua busca por um pequeno avanço, está disposto a mover o mundo em direção à escuridão, justificando-se com a retórica do dever. Esta é a traição do homem a si mesmo, a renúncia à sua liberdade moral em troca de uma segurança ilusória. A verdadeira fortaleza reside em resistir a essa tentação, em manter a veracidade para consigo e com a ordem moral, mesmo quando o sistema recompensa o contrário. A justiça não se compra com cargos nem se vende por medo; ela exige a integridade de cada alma, que não se dobra ao ídolo do Estado nem à tentação da mediocridade recompensada, mas busca a ordem justa e o verdadeiro serviço ao próximo.

O problema central, então, não é apenas o mau líder, mas o bom cidadão que, por falta de caráter, permite-se ser um mau servo. O dever mais alto do homem é para com a verdade e a lei moral inscrita em seu coração. Quando essa bússola interna é trocada por galões e salários, a estrutura social se desfaz, e a liberdade definha, não por um golpe de estado espetacular, mas pelo esmagamento silencioso das consciências individuais.

Fonte original: InfoMoney

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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