Atualizando...

Ben-Gvir: Escárnio no Vídeo Corrói Moral de Israel

Ben-Gvir publicou vídeo zombando de ativistas capturados, gerando condenação global. A coluna analisa como o escárnio compromete a autoridade e integridade moral de Israel.

🟢 Análise

O palco digital, tantas vezes usado para a exaltação da virtude e a difusão da verdade, tornou-se, pelas mãos de um ministro, um espelho turvo para a exibição de uma crueldade desnecessária. A recente publicação do vídeo em que Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional de Israel, zomba de ativistas capturados nas flotilhas de Gaza não é apenas um deslize diplomático; é uma performance de má-fé que trai a autoridade legítima e compromete a integridade moral de uma nação.

Os fatos são visíveis e irrefutáveis: ativistas, alguns agredidos e postos de joelhos, mãos amarradas, tornam-se objetos de escárnio num vídeo intitulado “Bem vindos a Israel”. O ultraje internacional foi imediato, com condenações da Itália, França, Canadá e Holanda, e até mesmo uma repreensão incomum do embaixador dos Estados Unidos, Mike Huckabee, que acusou Ben-Gvir de “trair a dignidade de sua nação”. O próprio primeiro-ministro Benjamin Netanyahu reconheceu que a conduta do ministro “não está de acordo com os valores e normas de Israel”, instruindo a deportação dos ativistas.

Ora, não se pode ignorar a complexidade do contexto que envolve Gaza e as operações de segurança israelenses. Há uma preocupação legítima com o contrabando de armas, a necessidade de proteger as fronteiras e a delicada teia de precedentes legais em águas internacionais, especialmente em zonas de conflito. As flotilhas, por vezes, podem ter agendas que vão além do puro auxílio humanitário, buscando a provocação ou a deslegitimação de um bloqueio que Israel considera vital para sua segurança. Ignorar essa camada de complexidade seria um reducionismo conveniente.

Contudo, nenhum direito à autodefesa justifica a profanação da justiça no tratamento de capturados. A forma como o poder é exercido é tão ou mais importante que a justificativa para seu uso. A ação de Ben-Gvir transcende a defesa de um território para adentrar o domínio da depravação moral. Ao transformar seres humanos, mesmo que adversários, em figuras de escárnio público, ele não fortalece a ordem moral pública; ele a corrói. A veracidade exige que um Estado se apresente com a dignidade que espera de si mesmo, não com a truculência de um espetáculo de humilhação.

São Tomás de Aquino nos recorda que a lei humana se funda na lei natural, e esta, por sua vez, na reta razão. Mesmo em tempos de guerra e conflito, há uma ordem dos bens a ser observada, na qual a dignidade intrínseca da pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus, jamais pode ser aviltada. O tratamento desumano, seja por agressão física ou escárnio público, desonra não apenas a vítima, mas, sobretudo, o agressor e a autoridade que ele representa. Talvez Chesterton dissesse que a loucura de querer rir da desgraça alheia é a mais corrosiva das insanidades, pois ela destrói a própria capacidade de discernir o bem e o mal.

Um Estado que legitima ou tolera a teatralização da humilhação, mesmo de quem considera inimigo, abre uma fenda em seu próprio caráter, fornecendo munição fácil para a propaganda adversária e minando a fé de seus aliados. A segurança não se compra com a moeda da baixeza; ela se edifica com a firmeza da justiça e a limpidez da veracidade. A força que humilha em público não é sinal de poder, mas de uma profunda insegurança, uma rachadura no próprio fundamento ético de sua defesa.

A verdadeira fortaleza de uma nação reside não apenas em sua capacidade de proteger suas fronteiras, mas em sua inabalável fidelidade aos princípios morais que a legitimam. O vídeo de Ben-Gvir é um convite à reflexão sobre o custo invisível da retórica vazia e da crueldade desnecessária. O bem da cidade exige líderes que compreendam que a autoridade se exerce com moderação e respeito, não com o escárnio que apequena a alma de quem a profere.

Fonte original: Correio Braziliense

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

Artigos Relacionados