A imagem que o ministro Itamar Ben Gvir fez questão de exibir ao mundo não é um mero ato de mau gosto; é uma pedagogia da abjeção, a redução deliberada de seres humanos ao estatuto de massa amorfa para o deleite político. Dezenas de ativistas, ajoelhados, amarrados, rostos virados para o chão, transformados em espetáculo público de zombaria por um ministro da Segurança Nacional que agita uma bandeira. O Magistério da Igreja, na voz de Pio XII, já nos advertia para a distinção fundamental entre o “povo” – uma comunidade de pessoas livres e responsáveis, cada qual dotada de dignidade inalienável – e a “massa” – uma conglomeração amorfa, facilmente manipulável e despersonalizada, onde a dignidade individual é esmagada. O vídeo de Ben Gvir encena precisamente essa aniquilação simbólica do povo em massa, num flagrante desrespeito à justiça.
A condenação internacional, e mesmo interna, às ações do ministro – que não é estranho a sanções e a um histórico de incitação – revela que nem todo o aparato estatal de Israel se curva a tal degradação. No entanto, o fato de um ministro com tal currículo poder instrumentalizar a autoridade para humilhar prisioneiros desarma qualquer pretensão de ordem moral pública. Não se trata aqui de julgar a legitimidade do bloqueio a Gaza, uma questão complexa de segurança nacional e direito internacional, mas de denunciar os meios que transformam a autoridade em despotismo e o exercício da lei em sadismo. A defesa da vida exige que se garantam as necessidades mínimas em Gaza, para além de qualquer bloqueio, e que a dignidade dos detidos seja sempre preservada.
A patologia da despersonalização não se restringe a um único ministro ou a um único conflito. Ela ecoa nos alarmantes dados sobre as execuções globais, com o Irã respondendo por quase 80% do total em 2025. O caso de Narges Mohammadi, vencedora do Nobel da Paz, presa e doente, cuja família teme que o retorno à detenção seja uma sentença de morte, é a face mais nítida de regimes que não veem nos seus cidadãos um povo a ser servido, mas uma massa a ser controlada e, se necessário, eliminada. A justiça não pode ser seletiva nem instrumental; ela é devida a cada ser humano, independentemente de sua filiação política ou de sua condição de detido.
E como se não bastasse a erosão da justiça, a veracidade também se torna vítima no palco geopolítico. Os ultimatos de Donald Trump ao Irã, as negociações que prosseguem nos bastidores enquanto se ameaça com o “dedo no gatilho”, e a fragilidade dos cessar-fogos no Líbano — onde os mortos se acumulam mesmo em tempos de “pausa” — revelam um teatro de sombras em que a comunicação responsável é sacrificada em nome de táticas de pressão. A instrumentalização da segurança nacional para ganhos políticos internos ou para justificar ações controversas é um perigo que a reta razão deve discernir. O discernimento político não pode ser confundido com a propaganda que distorce a realidade e confunde o povo.
A desaprovação majoritária da opinião pública americana às ações militares contra o Irã e à guerra em Gaza é um sinal claro da desconexão entre o “povo” e certas escolhas de governo. Quando as decisões de Estado se afastam tão drasticamente do sentimento popular, especialmente em questões de vida e morte, a ordem democrática se fragiliza. A boa governança, que almeja a ordem moral pública, exige mais do que a afirmação unilateral de interesses; exige a capacidade de ouvir, de explicar, e de agir com transparência, temperança e responsabilidade.
A complexidade da conjuntura, com seus múltiplos atores e agendas, não autoriza a simplificação moral. Contudo, essa complexidade também não pode servir de pretexto para a barbárie. O espetáculo da humilhação, a explosão de execuções sumárias, as ameaças nucleares e a retórica belicosa são sintomas de uma profunda crise de veracidade e justiça. A verdadeira fortaleza de uma nação reside não na exibição de poder sobre os fragilizados, mas na irrestrita salvaguarda da dignidade de cada pessoa e na busca incansável por uma paz edificada sobre a verdade e a caridade.
Que a luz da fé ilumine os corações, e a razão nos guie para que a humanidade, em sua busca por ordem, não se perca na escuridão do espetáculo, transformando o povo em mera massa manipulável.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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