Quando a tempestade ruge nas fronteiras, e os próprios pilares da casa estremecem por disputas internas, a nação se vê diante de um teste não apenas de força, mas de caráter. É o que se observa em Israel, onde a votação preliminar para a dissolução do Knesset, proposta pelo próprio governo de Benjamin Netanyahu e surpreendentemente apoiada pela oposição, expõe uma crise que transcende a mera dinâmica parlamentar. Por trás da aparente convergência política para uma eleição antecipada, esconde-se uma trama complexa de interesses particulares que se digladiam em um momento de guerra existencial, levantando a incerteza mais do que a solução.
Os fatos são inegáveis: com 110 de 120 parlamentares a favor, o projeto de lei para eleições antecipadas avança. Este movimento vem à tona após a declaração de uma facção judaica ultraortodoxa de que não considerava Netanyahu um parceiro, acusando-o de não cumprir a promessa de isentar sua comunidade do serviço militar obrigatório. Este é um estopim, mas não a causa única. A credibilidade da política de segurança de Netanyahu foi abalada pelos ataques de 7 de outubro de 2023, o primeiro-ministro enfrenta um julgamento por corrupção e, aos 76 anos, com um marca-passo, sua saúde também é tema. Em meio a uma guerra contra Hamas, Hezbollah e Irã, a escassez de soldados de combate torna a questão do serviço militar para todos os cidadãos uma exigência inadiável de justiça e dever compartilhado.
Aqui, a lente do Magistério da Igreja e de São Tomás de Aquino é implacável. O princípio da justiça distributiva, que exige a partilha equitativa de encargos e benefícios para o bem comum, é frontalmente desafiado pela demanda por isenção militar em tempos de guerra. Nenhuma comunidade particular, por mais legítimas que sejam suas tradições, pode se colocar acima do dever cívico fundamental de defesa da nação, especialmente quando a nação está sob ataque. A tentativa de uma facção de barganhar tal isenção por apoio político revela uma inversão perigosa da ordem dos bens, onde o particular se sobrepõe ao universal, e a conveniência de poucos subjuga a necessidade de todos.
É legítimo perguntar, como a objeção levanta, se essa eleição antecipada é uma manobra estratégica calculada por Netanyahu para solidificar sua posição, capitalizar sobre sua liderança em pesquisas e, talvez, influenciar seu processo legal. O presidente Isaac Herzog já está mediando conversas para um acordo judicial. Se um líder, em vez de enfrentar as consequências de suas ações passadas ou de resolver uma crise interna com firmeza em nome da integridade nacional, utiliza o artifício eleitoral como rota de fuga ou fortalecimento pessoal, a veracidade de sua liderança é comprometida. A liderança verdadeira, conforme nos ensina a Doutrina Social da Igreja, é um serviço à ordem moral pública e ao povo, não à manutenção egoísta do poder. Como Pio XII alertou, o governante deve servir o “povo”, corpo orgânico de deveres e direitos, e não a “massa” amorfa a ser manipulada para fins próprios.
A surpreendente unanimidade na votação preliminar — incluindo a oposição que falhara em derrubar o governo antes — sugere uma complexa teia de oportunismos. Ninguém se opôs à dissolução, talvez porque cada facção vislumbre alguma vantagem em novas eleições, ignorando o custo de uma prolongada instabilidade política em um país sob ameaça constante. Esta fragilidade interna, que transforma o Knesset em um tabuleiro de xadrez de barganhas e ambições, mina a fortaleza moral da nação e sua capacidade de responder unida aos desafios externos. É um lembrete de que a sanidade política exige que os líderes pensem no horizonte da civilização, não apenas na próxima eleição. Chesterton, em seu paradoxo sobre a loucura lógica, talvez risse da absurdidade de um país em guerra que, em vez de cerrar fileiras, opta por uma disputa eleitoral que pode apenas aprofundar as fissuras.
O que se desenha não é um simples realinhamento democrático, mas uma crise de magnanimidade. Faltam líderes capazes de erguer-se acima das pequenas contendas faccionais para buscar, com retidão e desprendimento, a ordem justa e a segurança duradoura da nação. O teste para Israel agora não é apenas militar, mas moral: saber se seus estadistas priorizarão a unidade e o dever cívico de todos em tempos de cerco, ou se as manobras políticas e as demandas de grupos específicos continuarão a ditar os rumos do Estado.
A História recordará se, na hora da prova, os estadistas souberam erguer-se acima das pequenas contendas para servir à grandeza da nação, ou se se apegaram a manobras táticas, deixando que a erosão interna precedesse a externa.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.