A praça Murillo, centro nervoso do poder boliviano, e as artérias que alimentam La Paz converteram-se em palco para um drama antigo, onde o clamor por justiça e a ânsia por ordem se chocam em violenta desordem. De um lado, trabalhadores, camponeses e mineiros, legítimos corpos sociais, elevam suas vozes contra um governo que acusam de desatender às suas demandas e de agir arbitrariamente. De outro, o Estado, responsável pela manutenção da paz, responde com força militar e policial, alegando defender a ordem constitucional contra a desestabilização. Entre ambos, a população comum sofre o desabastecimento, a inflação e a paralisia, uma ferida aberta no próprio tecido da vida civil.
A legítima autoridade, segundo a doutrina social da Igreja, não é um poder arbitrário, mas um serviço ao bem da cidade, que se funda na liberdade ordenada e na justiça social. Sim, o governo de Rodrigo Paz, legitimado pelas urnas (ainda que com o incômodo eco de 1,2 milhão de votos nulos e a exclusão política de um líder expressivo), tem o dever primordial de garantir a ordem pública e o livre trânsito, assegurando que o acesso a bens essenciais como alimentos e combustíveis não seja impedido. A utilização de táticas extremas, como os bloqueios massivos e o uso de dinamite por parte de manifestantes, transcende o direito à expressão e atinge a incolumidade e a dignidade de terceiros, exigindo uma resposta estatal.
Contudo, a resposta estatal jamais pode ser cega ou desproporcional. A mobilização de 3.500 agentes, as dezenas de detenções, os feridos e as denúncias de abusos policial-militares lançam uma sombra sobre a legitimidade dos meios empregados. Pio XII advertia sobre a distinção crucial entre o povo, sujeito de direitos e participante da vida pública, e a massa, informe e manipulável. Um governo sábio sabe discernir as genuínas demandas do povo e buscar o diálogo construtivo com os corpos intermediários (como a Central Obrera Boliviana), em vez de tratar todo protesto como conspiração para “romper a ordem constitucional”. A veracidade exige que se exponha a tentativa de associar bloqueios ao narcotráfico como uma tática de desqualificação que mina a confiança e a possibilidade de mediação.
O Vice-presidente Edmand Lara, ao questionar o Presidente Paz – “A que tem medo, Presidente? Ao seu próprio povo? Não é seu inimigo” – aponta para a mais elementar das virtudes de um governante: a honestidade no reconhecimento da dor social e a caridade política para com seus cidadãos. A negociação, ainda que forçada pelas circunstâncias, como os quase 12 horas de diálogo com os mineiros ou a promessa de bônus aos professores, demonstra que as pautas não são meros pretextos, mas clamores reais que exigem atenção.
A verdadeira justiça demanda que o Estado não apenas reprima a desordem, mas também enfrente as causas da insatisfação. A propriedade, ensinava Leão XIII, tem uma função social, e os trabalhadores merecem salários justos e condições dignas. A subsidiariedade ordena que o governo central fortaleça os entes menores e as associações, permitindo-lhes desenvolver suas vocações e reivindicações de forma orgânica, sem esmagá-los.
A crise boliviana não se resolve com a retórica de um lado ou a violência do outro. Exige magnanimidade dos governantes para ouvir e temperança dos protestos para não paralisar o cotidiano. A estabilidade política e o progresso social não são frutos da imposição, mas da construção paciente de consensos, onde a autoridade se exerce com justiça e a liberdade se manifesta com responsabilidade. A Bolívia precisa da esperança de um futuro onde a rua não seja um campo de batalha, mas um caminho para a paz e para a ordem que brota da verdade.
Um país se ergue não sobre o concreto rachado do conflito, mas sobre as pontes do diálogo e da responsabilidade mútua, sustentadas pela firmeza da justiça.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
Artigos Relacionados