A República, como qualquer corpo vivo, não pode florescer sem um fluxo sanguíneo que a nutra: a lealdade ordenada. Contudo, essa lealdade não se deve à figura de um homem passageiro, mas aos princípios perenes que a fundam e à lei que a sustenta. Quando essa ordem se inverte, e o clamor do chefe suplanta o imperativo da Constituição, a saúde do organismo político é posta em risco. O que se observa hoje no Partido Republicano americano, sob a sombra de Donald Trump, não é uma mera disputa interna, mas a metástase de um personalismo que ameaça corroer as próprias raízes da vida cívica.
Não há, evidentemente, partido político que não viva de disputas internas, realinhamentos ideológicos e afirmação de sua disciplina. As primárias são, por natureza, um campo de batalha legítimo, onde a base de uma legenda escolhe a direção e os rostos que a representarão. Mas há uma linha tênue, facilmente cruzável, entre a legítima busca por coerência programática e a imposição de uma lealdade pessoal que exige abjurar a consciência e o dever cívico. Quando a não adesão a um indivíduo se torna o critério de exclusão, o que se purga não é a dissidência política, mas a própria liberdade de espírito que constitui o cidadão.
O caso do senador Bill Cassidy é emblemático. Um republicano de dois mandatos que votou pela condenação de Trump no impeachment de 2021 e, por isso, foi sumariamente varrido nas primárias, enquanto o ex-presidente celebrava, em suas redes, o “fim” de sua carreira. A frase de Cassidy – “Nosso país não gira em torno de um indivíduo. Trata-se do bem-estar de todos os americanos e da nossa Constituição” – ecoa a voz da justiça e da probidade. Sinaliza a bússola moral que muitos esquecem, trocando a bússola pelos caprichos de um líder. O “partido de Donald Trump”, como pontuou o senador Lindsey Graham, revela essa apropriação, que deforma o partido de uma associação livre de cidadãos para uma massa servil. Pio XII já advertia sobre a distinção crucial entre o “povo”, corpo orgânico e soberano, e a “massa”, amorfa e manipulável, subjugada por vozes que lhe prometem tudo e dela exigem tudo, sobretudo a obediência cega.
Para além da purga, há a manipulação explícita das regras do jogo. A tentativa de eliminar distritos com tendência democrata, como em Indiana, onde legisladores que se opuseram a tal engenharia perderam suas primárias, não é estratégia política; é a perversão do princípio da representatividade. O gerrymandering partidário não é um mal menor; é uma chaga na justiça eleitoral, que desfigura a vontade popular e mina a confiança no processo. O fundo secreto de US$ 1,776 bilhão criado por Trump para “vítimas” da suposta guerra jurídica, com prazo de validade após a eleição de 2028, é um mecanismo opaco que levanta sérias questões sobre honestidade e o uso de recursos para fins de controle e recompensa, mais do que de reparação legítima.
Nesse cenário, a voz do legislador Massey, da Carolina do Sul, ressoa com o paradoxo que Chesterton tão bem dissecava: “talvez nos convençamos de que a única maneira de preservar a República é implementar políticas contrárias aos ideais fundadores da República.” Eis a loucura lógica: destruir o que se busca salvar, em nome de uma salvação que aniquila a substância do que deve ser preservado. É a soberba ideológica que, ao se crer salvadora, trai a realidade e a reta razão.
O que se exige de uma liderança política, especialmente em momentos de tensão, é a magnanimidade de alma, a capacidade de elevar o debate acima do pântano dos ressentimentos pessoais e das retribuições menores. A política, em sua acepção mais nobre, é a arte de governar para o bem da comunidade, de consolidar a ordem justa onde cada cidadão encontre seu lugar e a lei impere sobre as vontades individuais. A desfiguração do Partido Republicano, se persistir, será um alerta não apenas para a América, mas para todo o Ocidente: a liberdade ordenada e a saúde da república dependem de uma lealdade que transcende o homem para se ancorar nos princípios imutáveis da justiça e da verdade.
Não se constrói uma nação com feudos pessoais, mas com o compromisso inabalável para com os ideais que forjaram sua grandeza.
Fonte original: Estadão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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