O calendário eleitoral de 2026, com sua aparente profusão de pré-candidaturas à Presidência, promete uma disputa vibrante. Contudo, essa efervescência numérica mascara uma aridez programática e a perigosa reiteração de um dilema: a nação, dividida entre polos cristalizados, busca uma “terceira via” que se anuncia aos borbotões, mas se manifesta em vozes tão dispersas quanto desprovidas de musculatura institucional e coerência substantiva. A verdade do processo político é que, sem líderes à altura dos desafios, a mera multiplicação de opções pode não passar de um teatro sem público para a alma do país.
Os fatos são claros. Luiz Inácio Lula da Silva, aos 80 anos, prepara-se para sua sétima disputa, com Geraldo Alckmin ao lado. Do outro lado, a figura de Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, emerge como o principal nome da oposição, não sem as suas próprias controvérsias e quedas nas pesquisas. Ambos carregam índices de rejeição que superam a metade do eleitorado, um sinal inequívoco de profundo descontentamento. Essa realidade não é desprezível; aponta para um desejo latente de renovação, de uma superação de ciclos que se arrastam. A pergunta, porém, é se a miríade de nomes que se apresentam — de governadores que renunciam a seus mandatos estaduais com chances ínfimas, como Ronaldo Caiado e Romeu Zema, a figuras sem histórico político como Augusto Cury, ou à reedição de candidaturas de nicho como Joaquim Barbosa, Renan Santos, Samara Martins, Hertz Dias, Edmilson Costa e Cabo Daciolo — realmente oferece essa alternativa, ou se apenas pulveriza a insatisfação em gestos isolados.
O dilema reside na diferença entre povo e massa, conceito tão caro a Pio XII. Um povo se organiza em corpos intermediários, reconhece sua história e busca o bem comum em uma ordem justa. A massa, ao contrário, é atomizada, suscetível a apelos emocionais e ao personalismo superficial. Quando a política se torna um palco onde a ambição pessoal se sobrepõe ao projeto de nação, o que se vê não é um povo escolhendo seu destino, mas uma massa reagindo a figuras efêmeras. A retórica da “antipolarização”, muitas vezes brandida por esses candidatos, soa oca quando não acompanhada de propostas concretas e da honestidade de avaliar a real capacidade de unificar um país tão fraturado. É um convite à humildade, a reconhecer que a política não é um mero espetáculo de salvadores, mas uma arte de edificar o futuro com os pés no chão da realidade.
A grande questão, portanto, não é a mera existência de mais nomes, mas a qualidade daquilo que se oferece. A veracidade impõe que se olhe para além dos discursos de “pacificação” ou de “não precisar do poder” e se pergunte: quais são os eixos programáticos que garantem a justiça social, a liberdade ordenada e a subsidiariedade tão fundamentais para um país continental como o Brasil? A renúncia de governadores bem-sucedidos em seus estados para se lançarem em aventuras presidenciais de baixa probabilidade, por exemplo, não apenas gera instabilidade administrativa, mas levanta uma questão ética sobre a responsabilidade para com o cargo já ocupado. Isso está longe da magnanimidade necessária para um projeto de civilização, que exige pensar no legado, não apenas no próximo mandato.
Chesterton, com sua aguda percepção do paradoxo, provavelmente notaria que a loucura de nossa época consiste em multiplicar as portas sem nunca abrir uma nova sala. Há um excesso de pré-candidatos que se dizem a “solução”, mas poucos que demonstram a sanidade de construir alicerces firmes para essa solução. A promessa de “virar a página” da polarização pode ser sedutora, mas a verdadeira virada exige mais do que um novo rosto; exige uma nova mentalidade política, que encare a verdade incômoda das fissuras sociais e se dedique à paciente obra de restaurar o tecido cívico, começando pelas comunidades e pela família, sociedades primeiras da ordem natural. A cidade, afinal, é também uma sala de aula cívica.
Para que a pátria floresça, não basta que se troquem os protagonistas de uma eterna encenação. É preciso que emerjam líderes que, imbuídos da veracidade e da magnanimidade, compreendam que o poder não é um fim em si, mas um meio para o serviço. Que a ambição seja a de construir uma ordem moral pública sólida, onde o diálogo se baseie em fatos e princípios, e não na paixão volúvel da massa ou no cálculo mesquinho da sobrevivência política. Somente assim o clamor por renovação deixará de ser um eco disperso para se converter em força organizada de transformação. O desafio é edificar o futuro não sobre a areia movediça de promessas vazias, mas sobre a rocha da verdade e da justiça.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.