Quando a voz se eleva na praça pública, prometendo a higienização da casa comum, espera-se que o zelador chegue com as mãos limpas e as intenções desimpedidas. Romeu Zema, pré-candidato à Presidência, apresenta-se com a ambição de um cirurgião fiscal e moral, descrevendo um plano que vai do corte de gastos à tolerância zero na segurança pública, tudo sob a bandeira de um “choque ético” e de um distanciamento da “gastança do Lula e do PT”. Sua experiência como governador de Minas Gerais é o pergaminho que atesta sua capacidade de “consertar” um estado endividado, revertendo déficits em superávits e cortando milhares de cargos. A promessa é de um Brasil mais eficiente, seguro e honesto, a começar por três prioridades inegociáveis nos primeiros cem dias de um possível mandato.
A urgência em reequilibrar as contas públicas é, sem dúvida, uma preocupação legítima, e a defesa de uma gestão austera ressoa em tempos de fragilidade fiscal. A Doutrina Social da Igreja, ao defender a boa administração dos bens temporais e a responsabilidade para com as gerações futuras, não condena a disciplina financeira. Pelo contrário, Pio XI, em Quadragesimo Anno, ressaltou a importância de uma ordem econômica justa, que não se limite à busca desenfreada pelo lucro ou à irresponsabilidade fiscal. Contudo, a transposição linear de cortes e reformas administrativas de um estado para um país federado tão complexo como o Brasil pode descambar em mero reducionismo. O risco de desmantelar serviços públicos essenciais, precarizar o trabalho de milhares e, em vez de gerar eficiência, causar um grave impacto na vida dos mais vulneráveis, é uma sombra que paira sobre a radicalidade das propostas. A verdadeira justiça social, como ensina a Igreja, exige que o ônus das reformas não recaia desproporcionalmente sobre os mais fracos, mas seja compartilhado com equidade.
No campo da segurança, a indignação com a criminalidade é compreensível e o desejo de “elevar o custo do crime” atende a um anseio popular por ordem. A citação de El Salvador e a defesa de uma redução da maioridade penal para jovens de 14 ou 16 anos, argumentando que “crime de adulto, pena de adulto”, revelam a disposição para uma abordagem de mão pesada. No entanto, a mera aceitação da “superlotação das prisões” como preço a pagar pela punição, sem um plano robusto para as causas da criminalidade ou para a dignidade intrínseca do preso, pode desviar a política de segurança de seu fim último: a paz social e a reintegração do indivíduo. Pio XII, ao tratar do “povo versus massa”, advertia para o perigo de uma política que não reconhecesse a dignidade de cada pessoa, transformando cidadãos em meros números e reforçando a desumanização nos sistemas carcerários. A justiça não se satisfaz com o encarceramento massivo que viola os direitos mais básicos do ser humano, mas busca a ordem que respeita a todos, inclusive os que erraram, e que endereça as raízes da desordem.
Na educação, a crítica aos investimentos nas universidades federais em detrimento da base, e a proposta de uma “contribuição” de 1% dos salários de egressos, aliadas ao apoio às escolas cívico-militares e às parcerias público-privadas, visam a combater o que Zema chama de “pacto pela mediocridade”. A valorização do ensino fundamental e o reconhecimento dos desafios da educação brasileira são louváveis. Porém, a desqualificação das universidades públicas como instituições que atendem apenas “à classe média, pela classe rica”, bem como a rotulação de qualquer resistência a modelos específicos como “esquerda que quer que a educação permaneça como está”, revelam uma polarização que dificulta o diálogo e a busca por soluções pedagógicas complexas. A educação, em sua essência, não é apenas um investimento utilitário ou um balcão de formação de mão de obra, mas um processo de cultivo da inteligência e da moral, fundamental para a formação de uma cidadania livre e responsável, para além das lógicas de mercado ou da uniformidade imposta.
Mas a fibra mais fina, e talvez mais frágil, da proposta de Zema reside na veracidade de seu “choque ético”. O candidato preza a “transparência” e a “ficha muito limpa” para seu vice, distanciando-se de “bandidos banqueiros” e de figuras com problemas na Justiça, como o caso de Daniel Vorcaro e o áudio envolvendo Flávio Bolsonaro. É uma retórica louvável. Contudo, a manutenção de alianças estratégicas com o Partido Liberal (PL), que inclui figuras com histórico de denúncias éticas e judiciais, por mera conveniência “ideológica de direita”, levanta uma pergunta incômoda sobre a coerência de seus princípios. O que é um “choque ético” se a limpeza da casa pública seletivamente deixa a poeira sob o tapete de certas alianças? A sanidade política, de que Chesterton tanto se valia para expor as contradições modernas, exige que a integridade não seja uma virtude de ocasião, mas um padrão inegociável, para que a promessa de um governo sem “rabo preso” não soe como mera bravata eleitoral. A ordem moral pública, em sua essência, exige que as palavras e os atos do líder político guardem uma unidade fundamental.
Os desafios que o Brasil enfrenta são hercúleos e exigem coragem, disciplina e capacidade gerencial. Mas não basta gerir; é preciso governar. Governar é, antes de tudo, ordenar moralmente a vida em comum. A verdadeira solidez da casa pública não se mede pela tinta fresca da promessa, mas pela firmeza de seus alicerces morais e pela honestidade inegociável de quem se propõe a construí-la.
Fonte original: ND
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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