A promessa de uma faxina, moral e fiscal, é um aceno tentador em terras brasileiras, saturadas de ineficiência e desmandos. Quando um pré-candidato à Presidência da República se apresenta com um tripé de “choque ético”, “combate à gastança fiscal” e “tolerância zero na segurança pública”, ele toca em chagas abertas de nossa vida pública, sinalizando um caminho de urgência e rigor. Romeu Zema, ao detalhar sua visão para os primeiros cem dias de um eventual governo, aponta para uma gerência que, em Minas Gerais, teria reduzido quase 50 mil cargos e transformado um déficit bilionário em superávit, além de ter dispensado o próprio salário em favor da caridade. É um perfil que, à primeira vista, parece oferecer a retidão e a competência administrativa que o bem da cidade tanto clama.
Contudo, a balança da justiça é sensível, e o peso das ações nem sempre se equilibra com o fervor das palavras. O mesmo candidato que prega um “choque ético” e não quer “estar junto com bandido banqueiro” mantém uma aliança “firme no campo ideológico da direita” com o PL, mesmo após expressar “decepção” com o envolvimento de figuras como Flávio Bolsonaro em episódios questionáveis. Aqui reside uma contradição de princípios que a veracidade exige encarar: uma bússola ética, para guiar um país, deve ter seu norte fixo, não vacilante ao vento das conveniências políticas. A integridade não é uma virtude de uso seletivo, mas um tecido moral coeso, sem rasgos ou remendos pragmáticos que desvirtuem o ideal de um presidente “ficha muito limpa” e “sem o rabo preso”.
No campo fiscal, a experiência de Minas Gerais, de fato, acena com resultados louváveis, mostrando que é possível reverter quadros de desequilíbrio. O corte de 50 mil cargos e a transição de um déficit para um superávit demonstram um ímpeto de responsabilidade fiscal. Mas a transposição dessa experiência para a complexidade da esfera federal exige mais do que um anúncio genérico de “choque contra a gastança”. A administração do tesouro público, à luz da justiça social, não se resume a um corte linear de números, mas a uma ordenação das prioridades que não sacrifique os serviços essenciais à população nem desestruture a máquina estatal sem um plano detalhado de realocação e qualificação. O princípio de que as soluções devem nascer o mais próximo possível dos problemas (subsidiariedade) exige que a reforma administrativa federal seja mais do que uma mera redução impessoal de quadros.
A “tolerância zero na segurança pública”, com a proposta de reduzir a maioridade penal e “elevar o custo do crime”, também merece um olhar que ultrapasse a retórica punitiva. A menção a El Salvador e à redução da criminalidade como modelo não pode ignorar as especificidades sociais e as complexas raízes da violência no Brasil. Sim, a impunidade corrói a ordem, e a justiça exige que o crime seja coibido com firmeza. “Bandido não vai ficar solto”, diz Zema. Mas o custo do crime, sim, deve ser elevado, com punições justas, mas o custo humano de uma justiça que apenas aprisiona, sem redimir ou prevenir, é alto demais para a dignidade da pessoa e para a estabilidade social. Uma política de segurança pública madura requer a fortaleza de enfrentar a criminalidade e a misericórdia de olhar para a recuperação e para as causas profundas da delinquência.
No âmbito da educação, a crítica à “pasteurização” do ensino e o “pacto pela mediocridade” ressoam com a necessidade urgente de elevar a qualidade e a liberdade de método pedagógico. A implantação de escolas charter e a tentativa de cívico-militares indicam uma busca por modelos que rompam com o status quo. Todavia, a proposta de ex-alunos de universidades públicas contribuírem com 1% do salário para as instituições, enquanto soa como medida de eficiência, exige ponderação sob a ótica da justiça. A educação pública, em sua essência, não é uma mercadoria a ser cobrada à posteriori, mas um direito e um investimento primordial no capital humano e espiritual de uma nação. A laboriosidade e a responsabilidade na formação não se medem apenas pelo retorno financeiro imediato, mas pela construção de uma cidadania plena.
Em suma, a defesa de um “choque ético”, de um combate à “gastança fiscal” e de uma “tolerância zero” na segurança são pilares que, em tese, buscam uma nação mais íntegra, eficiente e segura. Mas para que essa construção seja sólida, e não um castelo de cartas que a primeira brisa derruba, é imperativo que a coerência entre o discurso e a prática seja inabalável. Uma aliança política, por mais pragmática que se queira, não pode macular a bandeira da ética que se levanta. E as reformas necessárias, para serem duradouras e justas, devem ser pensadas não apenas como cortes numéricos, mas como um ordenamento moral e social que reconheça a complexidade humana e a busca pelo bem comum, sem reducionismos que empobrecem o debate.
A reconstrução de uma nação não se faz por meros acenos de eficiência, mas pela teimosa adesão a princípios que não se dobram nem à sedução do poder, nem à urgência do pragmatismo.
Fonte original: ND
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.