O mercado político, por vezes, opera na contramão da lógica moral. Não se trata de uma feira de ideias, onde convicções são debatidas em praça pública, mas de um balcão de trocas onde princípios parecem ter um preço flutuante, ajustado à conveniência do momento. As recentes críticas de Ricardo Salles à relação de Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro — este último preso por delitos financeiros — descortinam mais do que um embate pontual; revelam as fissuras de um movimento político que, ao se apresentar como zelador da moralidade, expõe, em seus próprios atos, uma fragilidade ética perturbadora.
É inegável a preocupação legítima com a promiscuidade entre o poder político e o financeiro, especialmente quando figuras sob investigação pairam na órbita de parlamentares. Salles, ao tachar de “imoral” a proximidade com Vorcaro, aponta para uma chaga que a Doutrina Social da Igreja sempre condenou: o uso do cargo público para benefício privado ou a conivência com ilicitudes, corrompendo a reta ordenação dos bens e a vida comum. A verdade devida à sociedade exige transparência e integridade de seus representantes, impedindo que a República se transforme num mero espólio de interesses.
Contudo, a voz que ergue a denúncia não pode ser surda à própria história. Ricardo Salles, ele mesmo, carrega o pesado fardo de um passado como ministro do Meio Ambiente, época em que, para muitos, personificou a degradação da agenda ambiental do país, e enfrenta processos judiciais cuja complexidade ele apressadamente promete que “vão ser encerrados”. Sua peregrinação entre partidos, buscando abrigo para sua candidatura ao Senado após ser preterido na disputa por São Paulo, mais do que pragmatismo, denota uma temperança política distorcida, onde a lealdade partidária e a coerência ideológica são negociáveis por uma vaga na lista eleitoral. A honestidade intelectual nos impede de ignorar o paradoxo: o acusador é, ele próprio, um símbolo das contradições que denuncia.
Essa duplicidade moral atinge seu ápice na minimização de eventos graves. Salles, ao classificar o 8 de Janeiro como “baderna provocada por pessoas de forma aleatória” e ao defender uma “anistia total”, desconsidera a gravidade dos ataques às instituições democráticas e à ordem moral pública. Tal interpretação distorce a veracidade dos fatos e ofende a justiça devida a um Estado de Direito. Os eventos daquele dia não foram meras manifestações espontâneas, mas uma agressão à legitimidade da autoridade constituída, um assalto à paz social que nenhuma retórica superficial pode apagar ou justificar.
A insistência em defender um “maior líder da direita”, enquanto se joga lama nos seus filhos e ex-aliados, revela uma tragédia de magnanimidade: a ambição desmedida de construir um projeto civilizacional que se esvai na pequena política do “toma lá, dá cá”, onde o objetivo final não é a elevação do debate ou o bem da cidade, mas a sobrevivência eleitoral e a manutenção do poder a qualquer custo. É a política reduzida a uma mera transação, onde o povo, a quem se deveria servir, é tratado como massa manipulável, não como cidadão consciente.
O custo de tal comportamento é alto. A erosão da confiança pública, o descredito da ação política e a confusão do eleitorado, que vê os defensores da “nova política” mimetizando os vícios da velha. A denúncia se esvazia quando o denunciante é contaminado pela mesma lógica transacional. A capacidade de construir um projeto político sério, com alicerces em virtudes permanentes como a justiça, a honestidade e a responsabilidade, é sacrificada no altar do oportunismo e da conveniência.
A verdadeira renovação não virá do exílio autoimposto da coerência, nem de ataques seletivos que servem apenas a agendas pessoais. Exige, isto sim, um retorno à integridade, à veracidade implacável sobre si e sobre os outros, e à justiça que impõe a todos, sem exceção, o peso da verdade e o custo da moralidade.
A política, para ser virtuosa, precisa de estadistas que busquem a vida comum com mãos limpas, e não de polemistas que sujam as próprias mãos ao atirar pedras.
Fonte original: Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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