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Ricardo Salles: Crítica e o Peso da Coerência na Moral Pública

Ricardo Salles critica a 'imoralidade' política de outros, ignorando acusações próprias. Analisamos a incoerência moral e a exigência de probidade na vida pública, à luz da Doutrina Social da Igreja.

🟢 Análise

No tabuleiro da política, onde os movimentos dos jogadores são observados com lupa e as peças se chocam em busca de poder, não raro se vê a balança da moralidade pública pender não pelo peso da virtude, mas pela força dos ventos de ocasião. Ricardo Salles, figura outrora de proa no governo anterior e agora deputado federal, emerge neste cenário como um polemista que aponta o dedo, com acidez, para a “imoralidade” alheia. Sua crítica a Flávio Bolsonaro, por exemplo, sobre a proximidade com um banqueiro sob investigação da Polícia Federal, soa como um grito de indignação que, em princípio, é legítimo. É dever elementar do homem público manter-se equidistante de interesses nebulosos, salvaguardando a integridade da coisa pública. A probidade não é um luxo; é um alicerce.

No entanto, a força de uma denúncia reside tanto na gravidade do fato denunciado quanto na autoridade moral de quem a faz. Aqui, a retórica de Salles, embora incisiva, revela fissuras que comprometem sua própria mensagem. A mesma voz que condena a “rendição ao Centrão” e a “velha política” é a de quem, preterido em disputas por cargos importantes, trocou de partido e não hesitou em fazer alianças que hoje denuncia. Mais perturbador é o padrão de minimizar as acusações que pesam sobre si — como as relativas a contrabando de madeira ou a infame declaração de “passar a boiada” —, enquanto impõe uma régua de rigor moral inatingível para os adversários ou os ex-aliados.

A Doutrina Social da Igreja, alicerçada na lei natural e na reta razão, não admite pesos e medidas distintos para condutas semelhantes. A honestidade não é uma capa que se veste e despe conforme a conveniência eleitoral ou a frustração pessoal; é um hábito que se forja na verdade e se manifesta na justiça. Quando um discurso moral é seletivo, ele perde sua autoridade intrínseca e se transmuta em mero instrumento de disputa de poder. São Tomás de Aquino nos recorda que a lei natural estabelece princípios permanentes que transcendem as táticas e as conveniências das leis positivas. A coerência entre o que se prega e o que se pratica é, assim, o primeiro testemunho da seriedade moral de qualquer agente político.

A crítica à influência do “Centrão” na política brasileira, por sua vez, é uma preocupação válida e que encontra eco na Doutrina Social, que adverte contra a estatolatria e a massificação do povo em detrimento de corpos sociais vivos e intermediários. A política, de fato, não pode se reduzir a um balcão de negócios, onde a governabilidade se compra com cargos e emendas, desvirtuando a representação e os mandatos. Mas a alternativa a essa prática não pode ser uma “pureza” ideológica que justifica o isolamento ou o ataque fratricida a aliados quando estes não se curvam aos interesses pessoais do polemista da vez. O pragmatismo, quando descolado de princípios sólidos, torna-se indistinguível do oportunismo que ele clama combater.

Questões complexas como a modernização da legislação trabalhista (a exemplo da proposta sobre a escala 6×1), os dados alarmantes sobre saneamento básico no país, ou a interpretação dos fatos que culminaram no 8 de Janeiro, exigem mais do que retóricas vazias ou a minimização interessada de evidências. A gestão pública e a busca pela `ordem justa` demandam um discernimento ético constante, que se debruce sobre os dados fidedignos, que ouça as diversas partes com abertura, e que busque o `bem da cidade` com verdadeira responsabilidade. Desqualificar, de pronto, todas as críticas ou pesquisas como ideologicamente enviesadas, ou distorcer números reais – como o percentual da população sem saneamento –, mina a confiança pública e impede a construção de soluções duradouras.

A cátedra moral na vida pública não se conquista pela virulência da denúncia, mas pela invulnerabilidade da própria conduta. Aquele que prega a ética é o primeiro a ser julgado por ela.

Fonte original: Correio Braziliense

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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