O diagnóstico de “veneno” político não raro se apressa em pronunciar o óbito, enquanto a doença real, a da “baixa estatura moral e política”, continua a corroer o corpo cívico por dentro. Falar em “velório de Flávio Bolsonaro”, como a metáfora insiste, ou em uma “overdose de bolsonarismo” que atinge a direita, pode ser a tentação de sepultar um sintoma antes de extirpar a causa. O que está em crise, de fato, não é a mera sigla partidária ou a persona de ocasião, mas a fibra moral que, por anos, tratou o populismo como um “atalho eleitoral inevitável”, uma espécie de pacto com a conveniência que, no fim, sempre cobra seu preço.
O Polemista Católico não se furta a examinar a patologia. É certo que parte da direita brasileira, seduzida pelo frenesi da massa – e não do povo, que é o conjunto orgânico de famílias e instituições –, cedeu ao canto da sereia de um populismo ruidoso. Não se trata de negar a evidência de uma degradação da ordem moral pública, onde a busca por atalhos eleitorais obscurece a retidão de meios. Pio XII já advertia sobre a facilidade com que a massa, manipulada, pode desviar-se do destino comum, ao invés do povo consciente de seus deveres e direitos, que exige a liberdade ordenada de Leão XIII.
No entanto, a precisão exige que se separe o juízo moral legítimo do vaticínio político ideológico. As notícias sobre “dinheiro suspeito, imóveis e agora filmes” envolvendo um senador, por exemplo, apontam para a necessidade premente de veracidade na vida pública e de justiça na apuração dos fatos. Mas a pressa em proclamar a “morte” de todo um espectro político, baseada em metáforas ou em pormenores ainda obscuros, como o tal “caso Flávio-Vorcaro” insinua, confunde a análise com o desejo, e a constatação da enfermidade com o atestado de óbito. A integridade cívica não se constrói sobre as ruínas antecipadas do adversário.
G. K. Chesterton, em sua defesa da sanidade contra a loucura lógica das ideologias, nos lembraria que o erro, quando cultivado e não combatido em suas raízes, possui uma notável resiliência. A insistência de alguns em prever um “declínio terminal” para o bolsonarismo, ou mesmo para o populismo de direita em geral, pode ser uma forma ingênua de subestimar a capacidade de mutação das paixões políticas e dos “atalhos” que seduzem o poder. O que é tido como “velório” pode ser apenas uma fase de hibernação ou de metamorfose, onde a ausência de princípios sólidos dá lugar a novas formas, talvez mais sutis, de instrumentalização do poder, distanciando-se da Realeza Social de Cristo de Pio XI.
A verdadeira “reorientação” de qualquer corrente política não se dá por decreto editorial ou por proclamação de falência alheia, mas por um exame de consciência profunda e pela humildade de reconhecer os próprios desvios. A crise da direita, se é que se manifesta, não é tanto a “morte” de um fenômeno, mas a anemia de um ideal. É a falta de fortaleza em se manter fiel a princípios perenes, substituindo-os pela conveniência eleitoral ou pela sedução de uma base que, por vezes, confunde a aspereza retórica com a firmeza moral. Sem uma retomada da dignidade da política, entendida como a arte de governar para o bem da cidade, qualquer “reorientação” será mera maquiagem tática, e não a restauração da ordem justa.
O “veneno” de que fala o editorial, portanto, não está apenas em um líder ou em um movimento efêmero. Está na tentação, sempre presente, de qualquer força política de sacrificar a integridade em nome da vitória fácil, de confundir a força bruta com a legitimidade, e de envenenar o debate público com a retórica da eliminação, em vez de elevar o nível da discussão para a busca do destino comum. A cura não reside na declaração de um “velório” apressado, mas na exigência de que os meios da política sejam tão íntegros quanto seus fins, e que a veracidade e a justiça informem cada passo, para que a vida cívica não pereça de uma enfermidade autoimposta.
Fonte original: Diário do Centro do Mundo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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