A nação não é um edifício que se ergue apenas sobre planilhas fiscais, mas sobre os alicerces morais e institucionais que dão forma à vida comum de seu povo. Quando a Argentina é palco de marchas massivas contra cortes orçamentários em suas universidades públicas, a tensão que emerge não é meramente econômica, mas civilizacional. De um lado, a urgência de uma austeridade fiscal radical, tese defendida pelo governo Milei como remédio para uma crise crônica. De outro, a defesa intransigente de instituições que, apesar de suas imperfeições, são nervo e seiva do futuro de um país.
É legítimo, sim, questionar a eficiência do gasto público, a gestão de recursos e a sustentabilidade de um modelo que por vezes se desvia da reta razão. A saúde econômica de uma nação é condição para a justiça, e não se pode pretender uma sociedade próspera sobre a ruína das contas públicas. Mas a austeridade, para ser virtuosa, exige veracidade: precisa ser transparente sobre suas metas e seus impactos, e não pode ser uma cortina de fumaça para a desconstrução arbitrária do que é vital. Quando se propõe uma economia de guerra, a primeira exigência é a honestidade sobre a real situação e sobre os meios empregados. É aqui que acusações de corrupção, como as que pesam sobre o chefe de gabinete do próprio governo, Manuel Adorni, corroem a autoridade moral de quem clama por sacrifícios alheios.
O que se defronta nas ruas argentinas é mais do que um embate de números; é um desafio à ordem jurídica e à própria subsidiariedade. A Lei de Financiamento Universitário, ratificada cinco vezes pelo Legislativo e amparada por decisões judiciais, não é um capricho, mas um consenso legal que o governo se vê acusado de ignorar por mais de duzentos dias. A desobediência a um arcabouço legal tão robusto mina a **justiça** fundamental que sustenta o Estado de Direito. Para São Tomás de Aquino, a lei, quando justa, obriga em consciência; quando injusta, pode ser resistida. Mas o que fazer quando um Executivo ignora a lei justa para impor uma agenda própria, ainda que com a pretensão de salvar a economia?
O custo social desses cortes é palpável e humano. Professores com salários desvalorizados em 40%, bolsas estudantis cortadas pela metade em quantidade e em valor, institutos especializados no tratamento de câncer funcionando com apenas um terço de sua capacidade. Não se trata de retórica, mas de vidas e vocações em risco. A universidade, como corpo intermediário, como instituição que precede o Estado em sua função formadora, tem sua própria dignidade. Esmagá-la em nome de uma abstração fiscal, sem um plano de reforma detalhado ou de reestruturação de suas fontes de renda, não é prudência, mas uma espécie de fúria ideológica que arrisca a sanidade da vida pública. Chesterton diria que é a loucura lógica de querer salvar a casa queimando os seus próprios móveis, esquecendo que o valor não está apenas na conta de gás, mas no aconchego do lar e na formação dos filhos.
A verdadeira reforma passa pela redefinição da missão da universidade, pela exigência de transparência na gestão e pela busca de novas fontes de financiamento, sim. Mas também passa pelo respeito à sua autonomia e pela valorização de seu papel na formação do capital humano e moral. Pio XI, ao advogar pela subsidiariedade, já alertava que o Estado não deve esmagar as iniciativas menores, mas apoiá-las em sua missão própria. Quando o governo se torna o único ator capaz de dar ou tirar a vitalidade de uma instituição tão central quanto a universidade pública, ele não está fortalecendo o povo, mas o massificando, tornando-o dependente de sua caneta.
A saída para a Argentina não reside em trocar um extremismo pelo outro, seja a gastança irresponsável, seja o desmonte cego. Reside em um discernimento maduro que equilibre a necessidade de austeridade com o imperativo da **justiça** e da manutenção das instituições que formam o tecido da nação. Um governo não se sustenta apenas pela força de suas ideias econômicas, mas pela capacidade de inspirar confiança, pela obediência à lei e pelo cuidado com seus cidadãos. A universidade, como sala de aula cívica, exige não um orçamento sufocado, mas um plano que garanta sua vitalidade e sua fecundidade para o futuro.
A verdadeira riqueza de uma nação não reside apenas na saúde de suas contas, mas na vitalidade de seus alicerces morais e na integridade de suas instituições, sem os quais todo ajuste se torna, no fim, uma ruína.
Fonte original: Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.