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Ucrânia: Luta Anticorrupção Reforça o Estado em Guerra

A Ucrânia combate a corrupção em plena guerra, processando Andrei Yermak. A ação não é um sinal de fraqueza, mas de resiliência institucional e compromisso com a justiça.

🟢 Análise

Quando um país está sob as garras da guerra, com a própria existência em jogo, a tendência é varrer para debaixo do tapete qualquer fragilidade interna em nome da unidade. Contudo, a Ucrânia, em meio ao fragor de um conflito existencial, nos apresenta um paradoxo: é justamente agora que suas agências anticorrupção movem-se para desmascarar e julgar a prevaricação em seus mais altos escalões. A acusação de lavagem de dinheiro e a apreensão de imóveis contra Andrei Yermak, ex-chefe de gabinete presidencial, não são meras anotações em um prontuário, mas um sintoma de algo mais profundo que merece ser perscrutado para além das manchetes apressadas.

Não há dúvida de que a persistência de acusações de corrupção, especialmente envolvendo figuras próximas ao poder, é um fardo pesado. O risco de desestabilização política e a distração de recursos em tempo de guerra são preocupações que não podem ser ignoradas; o escrutínio público, bem como o internacional, é legítimo e necessário. A dignidade da pessoa humana, que exige um ordenamento social justo e transparente, é aviltada por qualquer forma de enriquecimento ilícito. O próprio Magistério da Igreja, desde Leão XIII, reitera a função social da propriedade e a responsabilidade que acompanha a gestão dos bens comuns.

Mas é aqui que a tese do “colapso iminente” falha em sua análise superficial. O que se observa, nas ações do Escritório Nacional Anticorrupção (NABU), da Procuradoria Especializada (SAPO) e do Tribunal Anticorrupção, não é um sinal de fraqueza terminal, mas a materialização de um esforço custoso e de longo prazo para edificar instituições sólidas. Processar um ex-chefe de gabinete presidencial, com a apreensão de bens e a previsão de penas severas por valores vultosos, não é trivial. É um ato de justiça que demanda fortaleza cívica em um cenário de fragilidade imposta.

São Tomás de Aquino nos ensina que a ordem dos bens começa com a retidão da razão e a submissão à lei natural. Um Estado que permite a impunidade em seus círculos mais íntimos falha em seu dever fundamental para com a justiça e a ordem do bem comum. O processo contra Yermak, portanto, é um esforço para realinhar a ação estatal com seus fins intrínsecos, que incluem a salvaguarda da probidade pública. Pio XII, em sua crítica à massificação e defesa da ordem moral pública, alertava que o Estado não pode se reduzir a uma mera abstração burocrática, mas deve ser um guardião da lei e da virtude. A capacidade de um governo em guerra de fazer valer a lei contra seus próprios poderosos, portanto, depõe contra a narrativa de uma disfuncionalidade total.

Diria um Chesterton que a loucura não é a ausência de razão, mas a razão aplicada a um pressuposto falso. Pensar que a Ucrânia, ao expurgar a corrupção interna, está se desintegrando, é confundir o sintoma com a cura. É como criticar um doente por vomitar o veneno que o matava. A verdadeira tragédia seria a inação, a omissão das instituições, a capitulação diante do câncer interno enquanto se luta contra o inimigo externo.

O ruído das narrativas externas, muitas vezes carregadas de intenção e desprovidas de nuances, tenta pintar um quadro de colapso. Alegações de “lavagem de dinheiro” e “mecanismos para legalizar” bens de luxo são sérias e devem ser apuradas, mas a própria publicidade e o andamento dos processos sugerem um sistema que, embora imperfeito, opera. A pressa em interpretar cada escândalo como prova de uma falência irremediável ignora a complexidade do combate à corrupção, que exige honestidade e veracidade na avaliação dos fatos, e não um mero sentimentalismo político ou a abstração burocrática que confunde o ideal com o inviável.

A verdadeira resiliência de um Estado não se mede apenas pela sua capacidade de repelir ameaças externas, mas, sobretudo, pela sua firmeza em depurar as internas. A cena de um tribunal ucraniano julgando um de seus ex-homens mais poderosos, em plena guerra, não é um epitáfio para o país, mas um testemunho, ainda que sangrento, de sua busca por uma ordem justa e pela integridade que a esperança em um futuro comum exige. A justiça, por mais dolorosa que seja sua face no presente, é a força que molda um futuro mais digno para a nação.

Fonte original: Jornal Grande Bahia (JGB)

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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