A arte da política, em sua essência mais nobre, deveria ser a edificação de um futuro comum, um trabalho de arquitetura que exige alicerces firmes e materiais honestos. Mas o que se observa no Ceará é uma movimentação que, embora justificada pelo clamor de “libertar-se do PT”, revela uma trama de cálculo tático onde a coerência e a verdade partidária parecem peças sacrificáveis. O pré-candidato Alcides Fernandes, ao defender publicamente a candidatura única do PL ao Senado e o apoio a Ciro Gomes para o governo, lança uma tese que, de tão pragmática, beira o paradoxo. Como um partido que se arroga a representação de uma direita assertiva pode, sem mácula à sua identidade, abraçar um aliado que, em outras circunstâncias, foi alvo de críticas ferrenhas de sua própria base?
A justificativa de que “o nome para se libertar do PT se chama Ciro Gomes” soa mais como uma sentença de conveniência do que uma convicção forjada em princípios. Um partido político, em sua vocação de corpo intermediário entre o indivíduo e o Estado, tem o dever de oferecer ao povo uma identidade clara, uma bússola moral e programática. Quando essa identidade se dilui em alianças que negam o histórico e os valores de seus próprios eleitores, o que se oferece não é uma alternativa robusta, mas um mero arranjo de poder que flerta com a desonestidade intelectual. A veracidade na vida pública não é um luxo, mas um pilar: ela garante que a palavra empenhada na campanha ressoe com a ação no governo, e que o eleitor não seja tratado como uma massa amorfa a ser direcionada por estratagemas momentâneos.
Além da incongruência ideológica, o processo de escolha interna no PL para essa tal “candidatura única” ao Senado expõe uma preocupante assimetria. Alcides Fernandes, em plena campanha, afirma que “o partido não pode ter dois, não pode ter três candidatos”, enquanto seu filho, André Fernandes, coordena a decisão partidária que definirá o nome. A pré-candidata Priscila Costa, descrita como “minoritária” e dependente de apelo a figuras nacionais, luta contra um jogo que parece já inclinado. Tal configuração, para além das regras formais, corrói a justiça que deveria guiar as deliberações internas de qualquer associação livre. A transparência, nesse contexto, é um bem inestimável; sua ausência ou sua deformação em favor de interesses preexistentes fere a confiança e fragiliza o próprio tecido democrático.
Uma política que se quer verdadeiramente transformadora deve transcender a estreiteza do cálculo eleitoral imediato. A magnanimidade exige que os líderes políticos não se contentem em apenas reagir ao inimigo comum, mas que se dediquem à construção de uma alternativa sólida, coerente e com horizonte. O mero anti-petismo, se não vier acompanhado de uma proposta positiva e íntegra, corre o risco de ser um motor vazio, incapaz de gerar frutos duradouros. Desmobilizar a base, minar a credibilidade e abrir espaço para a narrativa do oportunismo não é uma via de libertação, mas de rendição a uma lógica onde o poder importa mais que a alma do projeto.
Partidos, como corpos sociais, não são meras federações de interesses pessoais ou tábuas de negociação. São, ou deveriam ser, escolas de cidadania e comunidades de propósito. Quando essa finalidade se perde em nome de alianças que contradizem sua própria gênese, o que se desfaz não é apenas um acordo eleitoral, mas a possibilidade de se oferecer à sociedade uma verdadeira escolha, fundada em propostas claras e respaldadas por uma conduta que inspira respeito e confiança. A vida política se empobrece quando a busca pela vitória aniquila a honestidade dos meios.
A política, em sua essência, não é mera aritmética de votos, mas uma arquitetura de confiança. E confiança não se edifica sobre areia movediça.
Fonte original: O POVO Mais
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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