O Peru se vê, uma vez mais, diante de um segundo turno que promete tudo, exceto estabilidade. Entre o legado de um autocrata e a sombra de um autogolpe, a nação cambaleia, buscando um prumo que parece cada vez mais distante das urnas. Não se trata de uma escolha entre o mal menor e o bem maior, mas entre duas formas de instabilidade que ameaçam os alicerces da vida comum. Diante da década de colapso político, crime generalizado e instituições paralisadas, a tentação por uma ruptura radical é compreensível. Contudo, a verdadeira ordem não se constrói sobre as ruínas da justiça ou da verdade, mas exige a paciente edificação sobre a rocha dos princípios.
Keiko Fujimori acena com uma “política linha dura”, explicitamente inspirada no governo de seu pai, Alberto Fujimori. As propostas de “juízes sem rosto” e a expulsão massiva de migrantes sem documentos, mesmo que embaladas como resposta à criminalidade galopante, ressoam ecos de um passado autoritário condenado por violações de direitos humanos. O Estado, ensina a Doutrina Social da Igreja, existe para servir a dignidade da pessoa humana e garantir a ordem justa, não para esmagar as liberdades individuais em nome de uma segurança que se torna sua própria antítese. A justiça não pode ser arbitrária, e o devido processo legal é um pilar inegociável da civilização, não um luxo a ser descartado em tempos de crise. Apelar a práticas que levaram à prisão de inocentes, como ocorreu no passado peruano, é minar a própria autoridade que se pretende restaurar.
Do outro lado, Roberto Sánchez, ex-ministro de um presidente que tentou um autogolpe, apresenta uma retórica de confronto, desqualificando opositores como parte de um “pacto mafioso” e defendendo o legado de Pedro Castillo. Promessas de “democratizar a riqueza” e “transformar a educação e a saúde” são nobres em princípio, mas a história recente mostra que, sem um compromisso firme com a institucionalidade e a independência dos poderes, tais aspirações podem degenerar em mais instabilidade, personalismo e perseguição política. A acusação formal do Ministério Público contra Sánchez por falsas declarações de campanha adiciona uma camada de incerteza sobre a integridade de seu próprio projeto e desafia a virtude da veracidade indispensável a qualquer governante.
É inegável que a população peruana anseia por soluções para uma taxa de homicídios que duplicou em dez anos e por uma classe política que a ignora (87% rejeitam o Congresso). Mas a solução não pode ser a de imitar a loucura de querer derrubar um edifício sem primeiro assegurar suas fundações. Como um Chesterton, em seu modo paradoxal, talvez notasse, não há maior insensatez do que tentar afugentar as pragas ateando fogo à própria casa, em vez de reformá-la com fortaleza e inteligência. A busca desesperada por ordem, quando descamba para o desprezo pela lei e a autoridade legítima, apenas prepara o terreno para um caos ainda maior.
O caminho para a reconstrução do Peru, longe de miragens autoritárias ou populistas, passa pela justiça intransigente, pela fortaleza de edificar instituições sólidas e pela veracidade no debate público. A Doutrina Social da Igreja sempre ressaltou a necessidade de corpos intermediários robustos, de uma subsidiariedade que fortaleça as comunidades locais e de uma solidariedade que carregue os fardos em comum, em vez de um Estado centralizador que, ora com mão de ferro, ora com promessas vazias, acaba por esmagar o povo.
O Peru não precisa de salvadores que prometem milagres com o caos, mas de estadistas que ousem edificar sobre a rocha da lei natural e da ordem moral, mesmo que sob tempestade. A escolha que se apresenta não é entre a moderação e a ruptura, mas entre a ilusão de uma ordem imposta e o risco de um desmonte institucional que aprofunde ainda mais a crise de um país que já sangra por suas feridas políticas. A verdadeira paz social só floresce onde a justiça é mais do que uma palavra, mas um caminho a ser trilhado com honestidade e perseverança.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.