O barulho das sirenes e a promessa de um novo plano para a segurança pública soam como um refrão cansado em muitos cantos do Brasil. O governo acena agora com um investimento vultoso de R$ 11 bilhões no plano “Brasil contra o crime organizado”, um pacote ambicioso que visa, em quatro frentes, asfixiar financeiramente as facções, fortalecer o sistema prisional, aumentar a resolução de homicídios e combater o tráfico de armas. A magnitude dos recursos — R$ 1 bilhão do orçamento federal e R$ 10 bilhões em empréstimos aos estados via BNDES — reflete a percepção da urgência de uma ameaça que, de fato, corrói a vida comum, como atestam os R$ 28 bilhões movimentados pelo crime em seis anos e a angústia de 81% dos moradores de áreas impactadas que vivem sob o medo de confrontos armados.
Contudo, a verdadeira medida da justiça de um plano não está apenas no volume de dinheiro que ele mobiliza, mas na profundidade de sua leitura sobre o mal que pretende combater. É aqui que O Polemista Católico levanta a voz. A insistência em soluções majoritariamente repressivas e tecnicistas – como bloqueadores de celular, drones e scanners para presídios – pode ser um perigoso engodo. Ela parte da premissa, demasiadamente simplista, de que a criminalidade organizada é um problema que se resolve com mais equipamento e mais fundos, e não, como a experiência histórica grita, um sintoma agudo de falhas estruturais do próprio Estado.
O crime organizado no Brasil, em sua essência mais sombria, floresce nas fissuras de um Estado muitas vezes ineficaz e, infelizmente, por vezes, cooptado. Como podem R$ 11 bilhões ser injetados em um aparato estatal sem uma estratégia igualmente robusta para erradicar a corrupção endêmica que permite a operação dessas facções? Pio XI, ao criticar a estatolatria, já advertia para o perigo de um Estado que se arvora a senhor e não a servidor, inchando-se de poder sem antes purificar-se. E Leão XIII, ao defender a primazia da família e das associações livres, lembrava que a ordem social é orgânica, não meramente um ajuntamento de indivíduos controlados por um Leviatã.
A fragilidade das instituições de controle e fiscalização é a terra fértil onde o banditismo financeiro e a violência se enraízam. O índice de resolução de homicídios, por exemplo, de meros 36% no Brasil contra uma média mundial de 63%, não é um problema de falta de drones; é um colapso investigativo que exige uma reestruturação profunda das polícias judiciárias e perícias. A promessa de fortalecer o sistema prisional sem atacar a cultura que faz das prisões incubadoras de facções, ou sem garantir que os recursos não se convertam em novas oportunidades de desvio, pode gerar apenas um ciclo vicioso de maior repressão e violações de direitos humanos, sem de fato reduzir o poder das organizações criminosas.
Chesterton, com sua perspicácia, talvez nos lembraria que o progresso real não reside em inventar novas complexidades para resolver problemas antigos, mas em retornar à simplicidade e à veracidade dos princípios. A sanidade, aqui, seria admitir que não se reconstrói uma casa com as fundações corroídas apenas com nova pintura e alarmes de última geração. É preciso escavar até a pedra angular, sanear o terreno da corrupção, e edificar sobre o alicerce sólido da honestidade institucional e de uma política que não se furte a enfrentar a desigualdade social que alimenta o recrutamento do crime.
É uma ilusão esperar que um plano puramente punitivo e tecnológico, dependente da adesão voluntária de estados em um ambiente político polarizado, possa desmantelar redes tão complexas e infiltradas. A questão não é negar a necessidade de combater o crime com firmeza, mas indagar se estamos curando a doença ou apenas medicando os sintomas, enquanto a enfermidade avança nas entranhas do corpo social. O Brasil não precisa de mais remendos caros, mas de uma reconstrução moral e institucional.
Não se constrói a paz social apenas com a força de bloqueadores, mas com a integridade das mãos que governam e a retidão dos propósitos que as movem.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.