A sanha contra o crime organizado, que agora galvaniza o Palácio do Planalto com a promessa de R$ 11 bilhões e a retórica de “devolver o território ao povo brasileiro”, é, em sua intenção, um grito legítimo por ordem. Ninguém, com o mínimo de apreço pela vida comum, pode negar a urgência de confrontar a hidra da criminalidade que corrói os alicerces da nação. Mas a edificação da paz social não se constrói apenas com o cimento da repressão ou com a pressa de transformar cada presídio em fortaleza inexpugnável. É preciso discernir se a planta da obra, por mais bem intencionada, não ignora as fundações mais profundas da desordem e, com isso, corre o risco de erguer um castelo de cartas.
O programa “Brasil Contra o Crime Organizado”, com seus quatro eixos de asfixia financeira, fortalecimento prisional, qualificação de investigações e combate ao tráfico de armas, demonstra um esforço concentrado. A meta de transformar 138 presídios estaduais em unidades de segurança máxima e o investimento substancial de R$ 11 bilhões são números que impressionam. No entanto, a Doutrina Social da Igreja, ao falar de justiça e da ordem na sociedade, insiste na integralidade e na prudência do Estado. Pio XI, por exemplo, alertava contra a “estatolatria”, a tentação de um Estado que tudo abarca e tudo pretende solucionar por si só, sem respeitar ou ativar os corpos intermediários e as causas reais da vida social.
Aqui reside o ponto crucial da objeção mais forte: a eficácia real e duradoura de um modelo que parece priorizar esmagadoramente o endurecimento punitivo. A história, tanto a nossa quanto a de outras nações, teima em nos mostrar que o simples encarceramento em massa, mesmo que em condições de segurança máxima, muitas vezes não desarticula o comando das facções, mas, paradoxalmente, as fortalece, transformando presídios em verdadeiros centros de recrutamento e coordenação. O crime organizado não é apenas um problema de portas e grades; é uma questão de raízes, de lógica econômica perversa e de cumplicidade que se estende muito além dos muros prisionais.
A promessa do Presidente Lula de combater o crime “desde a esquina até o andar de cima do prédio mais alto” é um reconhecimento tácito da amplitude do problema. Contudo, se a asfixia financeira do crime não for acompanhada por um combate igualmente vigoroso e proporcional à corrupção sistêmica e à criminalidade de colarinho branco que opera nos verdadeiros “andares de cima”, o programa corre o risco de ser seletivo. A justiça exige que a balança não penda apenas sobre os vulneráveis das periferias, mas que seja implacável com os financiadores, os lavadores de dinheiro e os agentes públicos que corrompem as instituições. Onde estão os investimentos e as estratégias proporcionais para fortalecer os órgãos de controle, a fiscalização financeira e a investigação da corrupção em todas as esferas?
Ademais, a sustentabilidade dos R$ 10 bilhões em empréstimos para os Estados, via BNDES, levanta uma questão de prudência fiscal. Estados já endividados podem ver a “ajuda” federal transformar-se em um fardo pesado, sem a garantia de que os novos custos operacionais e de manutenção de um sistema carcerário de segurança máxima serão eficazes ou suportáveis a longo prazo. Um governo sábio discerne os meios e os fins, e considera não apenas o efeito imediato, mas a cascata de consequências para a autonomia e a saúde financeira das unidades federativas.
Para que a ordem seja verdadeiramente restaurada, e o bem da cidade floresça, o combate ao crime precisa ser um projeto que transcende a mera punição. Ele exige a coragem de diagnosticar as doenças estruturais da sociedade — a desigualdade brutal, a ausência de educação de qualidade, a falência de oportunidades reais — e não se contentar em medicar os sintomas com um arsenal cada vez mais caro e sofisticado. A força do Estado é necessária, sim, mas sua sabedoria está em edificar uma sociedade justa que não apenas aprisiona o mal, mas que o desenraíza pela promoção do bem. A verdadeira segurança não é a ausência de perigo, mas a presença firme da justiça.
Fonte original: Correio
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.