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Crime Organizado e Política: O Risco do Espetáculo no Brasil

O crime organizado avança no Brasil, minando instituições. O combate se politiza, ofuscando a corrupção sistêmica. Ação despartidária e justiça são cruciais para a ordem pública.

🟢 Análise

A lamúria nacional ante a capilaridade do crime organizado em nosso corpo cívico, por mais legítima que seja, arrisca-se a transformar-se em mero ruído quando o combate se subordina ao espetáculo político. Não há como negar a chaga. A pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública não faz outra coisa senão confirmar o que o homem comum já sente na pele: mais de 60% dos brasileiros veem o crime organizado ditando regras em seus bairros. Essa é a realidade brutal de uma nação cujas instituições, por vezes, parecem frágeis demais para o peso da corrupção e da intimidação.

Nesse cenário de sombra, é natural que o Estado reaja com medidas ostensivas. O governo federal, ao promulgar a Lei Antifacção, sancionar normas mais duras contra crimes cibernéticos e destinar vultosos recursos – R$ 11 bilhões – para a segurança, demonstra que a inação não é uma opção. A cooperação internacional proposta aos Estados Unidos para frear o tráfico de armas também aponta para um reconhecimento da complexidade transnacional do desafio. São ações necessárias, que sinalizam um esforço para restabelecer a ordem.

A batalha contra o crime organizado, contudo, é um combate à corrupção que permeia a sociedade como uma teia capilar, e não apenas um ajuste de contas entre partidos. As denúncias de ligações de políticos com milícias e facções, como aquelas que pesam sobre figuras do bolsonarismo – incluindo ex-deputados e seus indicados presos por alegado auxílio ao Comando Vermelho – ou empresários com contratos estatais e laços com o PCC, são gravíssimas. Elas expõem as fendas por onde o submundo infiltra o edifício público. O caso do ex-governador do Rio cassado e de seu vice preso, ou as notórias associações de familiares de ex-presidentes com milicianos, são sintomas da gangrena que avança sobre o corpo cívico, minando a confiança da população.

O crime, afinal, não tem bandeira partidária; busca o poder onde quer que se manifeste, à direita, à esquerda ou ao centro. A tentação de reduzir essa complexa patologia social a uma questão de espectro ideológico específico é um erro que serve apenas para desviar o foco do mal em si. Acusações de “sabotagem” ou de “fortalecimento de facções” contra governos estaduais, sem provas cabais de intenção criminosa, arriscam-se a converter a legítima fiscalização em guerra política, esvaziando a autoridade moral da denúncia e minando a confiança na própria Justiça. A prioridade central dos governadores na segurança pública estadual, como define a Constituição, não é uma carta branca para a inação, mas uma responsabilidade que exige probidade acima de conveniências.

A Doutrina Social da Igreja, inspirada por Leão XIII, Pio XI e Pio XII, nos adverte contra a estatolatria e a massificação, mas também contra a fragilização do povo em face de poderes paralelos. A verdadeira ordem moral pública exige justiça universal, que não faça distinção de pessoas ou partidos. Exige veracidade nas acusações, para que a espada da lei não se torne arma de propaganda. O problema reside menos em um ou outro governo específico e mais em um sistema que falhou em garantir a liberdade ordenada e proteger as associações legítimas da família e do trabalho contra a tirania das sombras.

O clamor por segurança, expresso nas ruas e nas pesquisas, não pode ser calado por cortinas de fumaça ideológicas. O combate ao crime organizado exige mais do que manchetes e disputas retóricas; demanda uma ação concertada, despolitizada e implacável contra todas as suas manifestações, venham de onde vierem, para que o Estado de Direito possa, enfim, se impor sobre o reino da arbitrariedade. Só assim se edificará uma paz verdadeira e duradoura, alicerçada na justiça e na integridade, e não na mera conveniência política, servindo ao bem comum de toda a sociedade.

O preço da distração é a persistência da barbárie.

Fonte original: Hora do Povo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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