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Zema: Ultraliberalismo, Trabalho Infantil e o Risco ao Brasil

Zema propõe ultraliberalismo para o Brasil: privatizações massivas e defesa de trabalho infantil. Modelos Milei e Bukele ameaçam justiça social e democracia. Analisamos riscos e custos.

🟢 Análise

A um construtor, antes de demolir, exige-se não só o vigor do martelo, mas a sabedoria da planta. É com um misto de alarme e assombro que se observa a agenda proposta por Romeu Zema, pré-candidato à Presidência, que empunha a “faca” do ultraliberalismo e do antissistema com uma volúpia destrutiva que promete desmantelar, em vez de edificar. Inspirado por experimentos sociais alheios à realidade brasileira, como os de Javier Milei na Argentina e Nayib Bukele em El Salvador, Zema propõe uma ruptura radical que, sob o manto da eficiência, ameaça os alicerces da justiça social e da dignidade humana.

A promessa de um ajuste fiscal de R$ 10 trilhões em duas décadas, alicerçado em privatizações massivas de estatais como Petrobras e Banco do Brasil, e em reformas administrativas e previdenciárias brutais, não é apenas um cálculo econômico; é um projeto social. A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, lembra que a propriedade, mesmo privada, possui uma função social, e que o salário justo não é mera cifra de mercado, mas o meio pelo qual a família pode dignamente sustentar-se. A ideia de que “passar a faca” em serviços públicos essenciais e benefícios sociais, sem um plano robusto de transição e proteção aos mais vulneráveis, é um caminho para a prosperidade é uma perversão da justiça, que exige a justa distribuição dos encargos e a atenção especial aos mais fracos. A obsessão pela eficácia econômica, divorciada de sua finalidade humana, é o que Pio XI chamou de estatolatria às avessas: a deificação do mercado, que serve a si mesmo em vez do homem.

Mais grave ainda é a defesa explícita do trabalho infanto-juvenil, com a desfaçatez de afirmar que “a esquerda criou a noção de que trabalhar prejudica a criança”. Aqui, a agenda ultraliberal descamba para a mais pura irresponsabilidade moral. A veracidade exige que se reconheça que a proteção da criança e do adolescente contra o trabalho precoce é um consenso civilizatório, amparado pela legislação brasileira e por tratados internacionais. Não se trata de uma invenção ideológica, mas de uma conquista moral que visa a garantir o pleno desenvolvimento físico, intelectual e espiritual de nossos menores, assegurando-lhes o direito à educação e à infância. Reverter essa proteção é um passo abismal para trás, expondo as crianças à exploração e comprometendo seu futuro em nome de uma falsa liberdade de mercado.

A retórica antissistema de Zema, que ataca ministros do Supremo Tribunal Federal como “intocáveis” e propõe emular um modelo de segurança pública “iliberal” como o de Bukele, revela uma perigosa incompreensão da fortaleza necessária para sustentar a ordem democrática. A sanidade de uma nação, como Chesterton nos ensinaria, reside na capacidade de defender as instituições que, com todos os seus defeitos, garantem a liberdade ordenada e o devido processo legal. A pretensão de “acabar com o crime, custe o que custar”, sem respeitar os freios e contrapesos e as garantias fundamentais, não é uma prova de força, mas de voluntarismo tirânico que pavimenta o caminho para a desordem e a injustiça. A autoridade legítima se pauta pelo direito, não pelo capricho.

A importação acrítica de modelos estrangeiros, como o “ultraliberalismo libertário” de Milei ou a “segurança iliberal” de Bukele, desconsidera as profundas particularidades históricas e sociais do Brasil. Um país com nossa complexidade e desigualdade não se remenda com a “faca” de um programa ideológico, mas se constrói com a paciente tessitura da humildade de quem reconhece que soluções para problemas complexos exigem diálogo, consenso e a proteção ativa dos corpos intermediários e das comunidades locais, segundo o princípio da subsidiariedade. O que serve para uma nação em colapso econômico profundo ou para uma pequena república centro-americana mergulhada em gangues não se replica sem discernimento em uma democracia continental.

O caminho da prosperidade e da segurança verdadeira não reside na desarticulação violenta do arcabouço social e institucional, mas na sua qualificação constante. A proposta de Zema, ao confundir liberdade com licença, eficiência com brutalidade e ordem com autoritarismo, arrisca entregar o Brasil a um experimento cujos custos sociais e humanos podem ser incomensuráveis. A nação não se faz demolindo seus pilares, mas reforçando-os com o cimento da justiça e da solidariedade.

Fonte original: Correio Braziliense

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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